09/07/2020 -- México
Eu n?o tenho dormido direito nos últimos dias.
Quando fecho os olhos, n?o é o escuro que me espera, é o Andrés.
O corpo pequeno demais para aquela sala. A forma como foi usado, testado e depois descartado como lixo. Uma vida reduzida a anota??es, números, resultados.
O que mais me destrói n?o é a morte dele.
é o depois.
O que eu vou dizer para a m?e dele?
Como se diz a uma m?e que o filho nunca mais vai voltar?
Que n?o houve resgate nem milagre.
Que o menino que ela descreveu olhos verdes, cabelo crespo, sorriso tímido terminou sozinho, com medo, em um por?o nojento e imundo.
N?o existe frase certa, n?o existe tom certo, só existe culpa.
Me levanto antes que minha cabe?a me afunde nisso de novo.
O apartamento ainda está silencioso, pesado. A luz da manh? entra fraca pela janela, atravessando partículas de poeira no ar. Parece tudo normal demais. Como se o mundo n?o tivesse sido quebrado alguns dias atrás.
Vou até a cozinha.
Coloco água pra ferver, preparo o café devagar, automático. O cheiro come?a a se espalhar, quente, familiar. Fa?o dois sanduíches simples p?o, queijo, o que tinha na geladeira. Nada elaborado. Só o suficiente.
Mateus ainda dorme no sofá improvisado. Encolhido. Magro demais pra alguém da idade dele. O peito sobe e desce rápido, como se até dormindo ele estivesse pronto pra acordar assustado.
Eu observo por alguns segundos.
E isso me atinge mais do que deveria.
Porque me lembra de mim.
Me lembra de quando Harry costumava acordar antes de todo mundo. Fazia café como se fosse um ritual. Forte demais, amargo até com a?ucar. Dizia que café bom n?o era pra agradar, era pra manter você de pé.
"Se você tá vivo, já tem trabalho a fazer", ele dizia.
Penso nisso agora, segurando a xícara quente entre as m?os.
Harry fazia café.
Harry ria alto.
Harry acreditava em mim.
E eu deixei ele morrer e agora o nome dele é apenas mais um no meu baralho, e isso pesa de um jeito diferente.
Coloco os sanduíches em um prato, deixo ao lado da cama improvisada do Mateus. N?o o acordo. Ainda n?o. Ele merece mais alguns minutos sem lembrar de quem é, do que fez, do que perdeu.
Volto a me sentar.
O café queima um pouco a língua, mas eu n?o reclamo. A dor pequena ajuda a manter o foco. Ajuda a n?o pensar no rosto daquela m?e quando eu disser a verdade.
Eu sou um investigador.
é meu trabalho encontrar respostas.
Mas ninguém nunca quer as ruins.
Olho de novo para o Mateus dormindo.
" Eu n?o vou deixar você virar mais um Andrés... " murmuro, baixo, como se o mundo estivesse ouvindo.
Talvez seja um promessa ou talvez seja um mentira.
Mas é tudo que eu tenho agora.
Saio do apartamento.
A rua ainda está acordando. Vendedores abrindo as barracas, ?nibus rangendo, gente vivendo como se o mundo n?o tivesse um por?o cheio de mortos a quil?metros dali. O México segue em frente. Sempre segue. Sou eu que estou atrasado no tempo, preso em algo que já acabou ou que nunca deveria ter come?ado.
Cada passo em dire??o à delegacia pesa mais que o anterior.
Eu já estive em salas assim antes. Já entreguei más notícias. Já vi olhos se apagarem em tempo real. Mas dessa vez é diferente. Porque eu prometi. Porque eu disse que traria Andrés de volta. Porque, por alguns dias, eu deixei uma m?e acreditar.
A fachada da delegacia aparece no fim da rua. Concreto gasto, bandeira pendurada sem vento. Respiro fundo. Endireito o casaco. Ajusto o distintivo da OMCB, mesmo sabendo que ele n?o significa nada aqui. Nunca significou.
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E ent?o eu a vejo.
Ela está sentada no degrau da entrada, como se n?o tivesse sido convidada a entrar. Pequena. Encolhida. As m?os apertam uma fotografia já amassada de tanto ser tocada. O polegar passa pelo rosto da crian?a na foto num movimento repetitivo, quase inconsciente.
Andrés.
O mesmo sorriso torto.
Os mesmos olhos verdes que agora só existem em papel.
Ela levanta o olhar quando me vê.
N?o sorri.
N?o chora.
Ela sabe.
Existe um momento curto, cruel em que as pessoas entendem a verdade antes das palavras. O corpo entende antes da mente permitir. Os ombros dela caem um pouco. O ar sai do peito devagar demais.
Eu paro a alguns passos de distancia.
Tudo que eu treinei.
Tudo que eu pensei em dizer.
Nada disso serve.
" senhor... " a voz dela falha. " você encontrou ele?"
A pergunta n?o é onde.
é como.
Engulo seco. Minha garganta fecha. Sinto o peso do por?o de novo, o cheiro, o frio, o silêncio que gritava.
Eu balan?o a cabe?a, devagar.
N?o como quem confirma um dado.
Mas como quem pede perd?o.
Ela aperta a foto com for?a, como se pudesse esmagar a realidade junto.
" Está... vivo?"
Essa é a pergunta que destrói homens.
Dou um passo à frente. Ajoelho para ficar na altura dela, porque ficar em pé seria covardia. Minha voz sai baixa, quebrada, mas honesta.
" N?o... " digo. " Ele n?o sofreu no fim."
N?o sei se isso é verdade.
Mas é a única misericórdia que posso oferecer.
O som que ela faz n?o é um grito. N?o é choro. é algo mais profundo. Um ruído que vem de um lugar onde palavras n?o alcan?am. Ela se curva para frente, a foto escorregando das m?os, caindo no ch?o entre nós.
Eu a seguro antes que ela caia junto.
Ela bate no meu peito com os punhos fracos, sem for?a, sem raiva.
" Eu disse pra ele n?o sair... "ela repete. "Eu disse... eu disse..."
N?o há resposta. Nunca há.
Eu apenas fico ali. De joelhos. Segurando aquela dor que n?o é minha, mas que agora me pertence também. Pessoas passam. Algumas olham. A maioria desvia. Dor alheia sempre incomoda.
Depois de um tempo n?o sei quanto ela se afasta um pouco.
Os olhos est?o vermelhos. Secos demais para quem chorou tudo que tinha.
" Você prometeu... " ela diz. N?o acusando. Constando.
" Eu sei. " respondo. " E essa promessa vai me acompanhar pelo resto da vida."
Ela pega a foto do ch?o, limpa com cuidado como se ainda pudesse protegê-lo de algo.
" Traga ele pra casa... " diz. " Mesmo que seja... só ele."
Eu assinto.
" Eu vou cuidar de tudo. " falo. " Eu juro."
Ela n?o agradece. N?o xinga. Apenas se levanta, lenta, como alguém que envelheceu décadas em minutos, e entra na delegacia.
Fico ali mais alguns segundos.
O sol esquenta meu rosto.
O mundo continua.
E eu entendo, com uma clareza cruel, que n?o importa quantos monstros eu derrube, quantas organiza??es eu exponha algumas perdas n?o têm reden??o.
"Alex Baker?"
Levanto o olhar devagar.
O homem à minha frente usa um terno preto impecável, contraste brutal com a pele escura e o couro cabeludo raspado. Ele n?o parece nervoso. Parece cansado.
" Sou eu " respondo, mantendo a m?o próxima ao baralho. " E você é?"
Ele sorri de lado, um sorriso sem orgulho algum.
"Samuel Norton. Cientista-chefe do Projeto AUB."
O ar pesa instantaneamente.
Meus dedos deslizam pelo baralho até encontrar o Três de Ouros. Puxo a carta, mantendo-a parcialmente visível, pronta para ativar se algo sair do controle.
" O que você quer? " pergunto, direto.
Samuel n?o faz nenhum movimento brusco.
" Uma alian?a." Ele inclina a cabe?a. " Em troca, eu digo onde Ernesto está. Onde fica o esconderijo. Quem ainda está vivo. Tudo."
Meus olhos n?o se desviam dele.
" Isso n?o é conversa para aqui."
Ele concorda.
" Ent?o vamos para outro lugar."
O restaurante é discreto, antigo, daqueles que sobrevivem porque ninguém presta aten??o neles. Sentamos num canto afastado. O cheiro de café velho e carne grelhada preenche o ar.
Samuel espera o gar?om se afastar antes de falar.
"Por que você me ajudaria? " pergunto.
Ele segura o copo d'água com for?a demais.
" Porque eu cansei."
A voz dele falha, só por um segundo. " Minha mente n?o aguenta mais. Horas, dias, anos testando o AUB. Observando pessoas morrerem lentamente até o colapso total."
Ele respira fundo.
" Homens. Mulheres. Crian?as." engole seco " Eu matei milhares, Alex. Eu n?o quero mais isso. Eu quero que tudo acabe."
O Três de Ouros pulsa levemente entre meus dedos.
Nenhuma distor??o.
Nenhum sinal de mentira.
" Eu acredito em você " digo, por fim. " A carta n?o indicou nada."
Os ombros dele cedem um pouco, como se estivesse esperando essa frase há muito tempo.
" Eu quero prote??o da OMCB " ele diz. " Em troca, eu entrego todas as informa??es."
" Fechado. " respondo sem hesitar. " Sua prote??o está garantida. Agora fala. Quero o esconderijo, as bên??os dos seus ex-aliados... e o paradeiro do Ernesto."
Samuel assente.
" O esconderijo principal fica numa casa uma casa comum, no centro de Monterrey."
" Endere?o? " pergunto, já anotando.
Ele dita. Minha caneta n?o para.
" Você matou quase todos os aben?oados do exército do Ernesto " continua. " Sobrou apenas dois."
" Ele faz uma pausa. "El Matador e eu.
Ele bebe um gole de água antes de continuar.
" A bên??o do El Matador é a Animus Selene. Ele consegue armazenar energia lunar e liberar na forma de animais espirituais ou cortes de energia. Preciso. Letal.
" Tá bom, tá bom" murmuro, anotando.
"A minha é a Transdu??o Entrópica " ele completa, quase com vergonha. "Ela é bem complexa ent?o para simplificar eu dou um soco e a coisa explode por dentro."
Silêncio.
" Entendido " digo.
Samuel se inclina para frente, abaixando a voz.
"última coisa." Seus olhos encontram os meus. " Dia 14 de setembro. Ernesto vai realizar uma reuni?o no prédio central da Cidade do México. O objetivo é um só, tomar o poder do país.
Fecho o caderno devagar.
O quebra-cabe?a finalmente come?a a fazer sentido.
" Obrigado por falar " digo. " Agora você está sob custódia da OMCB. E se estiver mentindo"
O Três de Ouros gira entre meus dedos.
" a verdade vai cobrar."
Samuel n?o recua.
" Eu já paguei demais " .
E, pela primeira vez desde que essa guerra come?ou, eu acredito.

