Ribeiro sentiu isso antes de ver qualquer coisa: a latência do mundo crescera de novo, como se o universo expirasse e retomasse o f?lego com menos ar. O resíduo estava lá, a assinatura que ele deixara, a pegada que sempre o traía, e a realidade, por um instante, resolveu perguntar o que acontecera.
O tecido do espa?o tremeu.
N?o um rasgo dramático, n?o uma abertura de portal como nos contos. Uma fenda fina, quase uma cicatriz no ar, que vibrava com imagens que n?o deviam ser vistas por olhos s?os. Para a maioria, aquilo seria destrui??o. Para Ribeiro era só mais um tipo de ruído, ele já morrera por dentro tantas vezes que a novidade era simplesmente outra forma de sensa??o.
Ele aproximou o rosto.
Do outro lado, três vis?es sangraram uma sobre a outra, cada qual com sua lei.
No primeiro deles o mundo n?o conhecia conflito. N?o havia armas, nem muralhas, nem palavras feitas para ferir. Em pontos do ch?o a realidade se dobrava sobre si mesma e, como se alguém lembrasse uma forma esquecida, novos seres simplesmente surgiam, n?o nasciam, n?o cresciam, eram lembran?as da existência tornando-se carne. Andavam com a naturalidade de quem nunca precisou decidir entre matar ou poupar. A paz ali n?o era fruto de escolha: era uma regra.
A fenda pulou.
O segundo era oceano absoluto. Horizontes que se dobravam em água, cidades apagadas afundadas sob vidro escuro. No centro, uma cúpula de vidro, n?o uma máquina, n?o um artefato conhecido, mas uma vontade materializada: vidro que respirava a esperan?a de uma alma. Dentro havia ar, m?os que seguravam vidas. Do lado de fora, a água esmagava a memória de tudo; dentro, a matéria preservava aquilo que alguém recusara a perder. Fragilidade e milagre condensados.
A fenda arrefeceu e mostrou o terceiro: um lugar com céu negro e luz que n?o vinha de estrela alguma. Ali, o tempo parecia ter sido desligado por instru??o. As pessoas caminhavam sem rugas; riam como se a palavra “adeus” fosse desconhecida. A alegria ali era uma matemática diferente, n?o era ignorancia, era ausência de contagem. Um mundo em que a passagem dos anos fora suspensa, um instante que se multiplicava em eternidade sob um teto sem sol.
Ribeiro tentou alongar a vis?o, puxar mais do que a fenda queria abrir. Havia outros fragmentos atrás; vastid?es que piscavam como recorda??es de um sonho que se recusava a terminar. Ele percebeu que aquilo era perigoso n?o porque lhe dissolveria, ele já era muito dissolvido, mas porque ver demais atraía olhos que n?o brincavam.
O ar atrás dele perdeu temperatura. A fenda come?ou a fechar, como se alguém costurasse a própria costura do mundo de volta à noite. Alguma presen?a obrigou o universo a firmar-se.
Ele virou-se devagar.
O que entrou no campo foi pior do que qualquer tulpa; era a fonte das tulpas. A forma real de Asbak n?o se era forma: uma simultaneidade de aparências que insistiam em existir juntas. Um cranio molhado por uma substancia que refletia o espa?o como vidro quebrado, depois um rosto feito de cores partidas, depois uma massa azul carregada de olhos colados na pele, tudo isto num compasso t?o rápido que o mundo inteiramente atrasava para acompanhar.
Ribeiro sorriu, pequeno, com a calma de alguém acostumado a conversas com o impossível.
— Ent?o… é você.
Disse ele, como se confirmasse um nome numa lista antiga.
As formas se aquietaram; a voz veio em coro e em sussurro, como se viesse de lugares que n?o eram o mesmo lugar.
— "?nt?o… v?c? fin?lm?nte p?rc?b?? m?? c?rp? v?rd?d?ir?."
Havia uma ironia sem desejo na frase. Uma das máscaras falou, provando que n?o havia só uma inten??o.
— "N?m m?smo aquel?s imprestáveis cons?guiram iss?. N?o esperava ist? d? VOcê."
O espa?o ao redor vibrava com pequenos estalos de coerência. As formas respiravam a lógica das coisas que se recortam.
— Veio até aqui pessoalmente
Ribeiro observou.
— Se quisesse me apagar, n?o teria aparecido.
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Houve um silêncio que cheirava a cálculo.
— "T?lvez"
Respondeu Asbak, e havia qualquer coisa de antigo no som.
— "Talv?z eu ainda consiga tirar algo de você… antes de decidir se vale a pena matá-lo."
("Certo… parece que consegui adaptar meu vocabulário para essa língua morta.")
Uma palavra, proferida quase casualmente: “Cranio.”
Outras vozes, outras bocas dentro dele, repetiram, sibilando: “Sim… cranio.”
Ribeiro deixou a palavra passar por seus sentidos sem se reagrupar. Ele sabia que “cranio” n?o era literal; Asbak recortava conceitos como quem tira miolo de pedra. Para uma entidade que colecionava assinaturas e costurava selos, o cranio era símbolo, chave, matriz.
— Você quer extrair coisas
Disse Ribeiro.
— N?o quer apagar apenas. Quer colonizar. Sempre quis.
Asbak inclinou-se, como quem cheira um ingrediente novo.
— "Você n?o entende. Eu n?o coleciono por vaidade. Eu preciso do que permites ser."
— "A sua mente n?o tenta consertar o mundo. Ela aceita falha. Isso é útil."
Ribeiro sorriu com um canto da boca. Há séculos, décadas, eras em sua contagem quebrada, ele havia aprendido a traduzir interesse para amea?a, e oferta para armadilha.
— Eu n?o sou uma máquina de presentes, Asbak.
Disse ele.
— Se vai arrancar algo meu, ao menos que seja um bom acordo.
As formas de Asbak se desfizeram em brumas de imagem, reorganizando inten??es.
— "A maioria se quebra quando olha para além do tecido."
A voz agora vinha com ternura clínica.
— "Quebram e apodrecem. Você… já nasceu quebrado. Isso n?o é fraqueza; é resistência. E resistência é recurso."
— O que você quer, ent?o?
Ribeiro perguntou. Curto. Direto. Como sempre.
Asbak ofereceu, num tom que poderia ser promessa ou senten?a:
— "Um fragmento. Um núcleo de assinatura. N?o o inteiro… ainda n?o. Apenas o mínimo que me permite projetar, por um tempo, uma coerência que n?o dependa inteiramente da carne. Preciso conduzir um experimento. Só isso."
Ribeiro mediu a pausa como se estivesse avaliando o peso de uma pe?a de metal.
— Experimentos costumam ser frios...
Ele inclinou levemente a cabe?a.
— E “por um tempo”… costuma virar permanente.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— Eu te conhe?o seu rato safado!
Asbak n?o negou nem confirmou.
— "Eu possuo poder suficiente para tirar, e poder suficiente para matar."
— "Posso poupá-lo até provar o que desejo. Posso torná-lo insignificante quando terminar. Ou posso negociar."
Ribeiro ficou quieto. A proposta estava aberta e nua. N?o carecia de artifícios; era cálculo. Ele lembrava do pre?o: cada instabilidade deixara vestígio no mundo. Cada vez que ele empurrara limites, algo aprendia como ca?á-lo. E Asbak vinha com tempo, com fome de ordem absoluta.
— E qual é sua garantia?
perguntou Ribeiro, voz baixa.
Asbak sorriu de uma forma que fez o vento do lugar estremecer.
— "Garantias… s?o palavras humanas. Eu ofere?o algo melhor: visibilidade. Eu te deixo um fragmento de vis?o. Um ponto para que veja além do que já viu. Você quer ver mais, n?o quer? E, se cooperar, n?o lhe arranco a sanidade, há coisas demais interessantes aí dentro."
Ribeiro pensou em silêncio. As vis?es, o vidro, o mundo sem tempo, tudo tentara puxá-lo para si e o deixara com uma urgência que queimava como febre. Ele sentiu o gosto do jogo: uma troca em que ambos conheciam metade das regras.
— Certo.
Falou por fim.
— Eu deixo você provar. Mas uma condi??o.
Asbak fez que sim com uma constela??o de olhos.
— "Fale."
— Nenhum corte profundo. Nenhuma remo??o de lembran?a que eu n?o permita. Você pega o fragmento; eu mantenho a assinatura que me permite ser rastreável. Você n?o apaga minha marca do mundo.
Ribeiro colocou as cláusulas como quem dobra uma lamina.
— E, quando acabar, se me trair, eu volto o suficiente para que você sinta o que senti quando a fenda fechou pela primeira vez.
Asbak gargalhou, som sem alegria, sem surpresa, quase admira??o.
— "Audacioso. Talvez divertido. Aceito o teste. Mas saiba: eu n?o trabalho com misericórdias eternas."
A fenda por trás deles já n?o existia; o selo do mundo retornara a sua forma. O vidro da esperan?a, o céu sem tempo, o ber?o sem guerra: fragmentos suspensos agora eram memórias daquilo que o olho de Ribeiro vira. A troca, se se completasse, deixaria novas marcas.
Ribeiro esticou a m?o. Asbak estendeu várias pela mesma dire??o, formas sobrepostas, um gesto que foi ao mesmo tempo oferta e apre?o calculado.
Os dedos se tocaram.
Por um segundo, o mundo fez uma pausa sensível: n?o era dor, era troca. Algo foi removido e algo foi dado. Algo que pertencia a Ribeiro passou a vibrar dentro da lógica fria de Asbak; algo que Asbak ofereceu voltou para Ribeiro como palavra, mapa, possibilidade.
As formas de Asbak recuaram, juntaram-se, e uma última vez uma face pronunciou, quase suave:
— "Você viu coisas que n?o deveria ver. Agora verá mais. E eu verei o que seu caos pode me ensinar."
Ribeiro n?o sorriu da mesma forma.
— Ent?o me ensine
Disse.
— Mas n?o espere gratid?o.
Asbak fez um gesto que poderia ser consentimento ou selo.
— "Nem eu espero."
disse.
— "Espero utilidade. Ah sim, eles ainda t?o na sua cola, te vejo em alguns dias."
Quando ele se afastou, a realidade reclamou sua tessitura: a fenda n?o reabriu. O mundo fechou suas feridas com mais cuidado que antes; o histórico crescera. Ribério ficou em pé, a escama no bra?o vibrando como metr?nomo de algo novo. Em algum lugar, um mecanismo da realidade anotou outro ponto.
A negocia??o terminara, por enquanto. O jogo, entretanto, apenas come?ava.

