Ribeiro dormiu porque quis.
N?o havia exaust?o acumulada, nem falha de funcionamento. O corpo n?o pedia repouso; apenas aceitava a decis?o. Dormir, ali, era um gesto semelhante a sentar, n?o por cansa?o, mas por permanência.
A casa n?o reagiu.
Nenhum ajuste, nenhuma acomoda??o tardia. O lugar n?o se preparou para acolher um corpo adormecido. Continuou sendo o que era, mesmo com ele ali.
O sono veio sem transi??o.
N?o houve queda, nem apagamento. Um estado substituiu o outro com a mesma naturalidade com que um c?modo sucede outro ao atravessar uma porta.
No sonho, os móveis n?o se arrastavam.
Eles simplesmente n?o estavam onde deveriam.
A mesa surgia mais próxima da parede. Depois, distante. A cadeira permanecia a mesma, mas sua sombra n?o acompanhava. Nada produzia som. Nada exigia aten??o.
Um pano cruzou o campo de vis?o.
N?o cobria nada.
N?o limpava nada.
N?o escondia nada.
Era apenas tecido em movimento, deslocando-se como se o espa?o tivesse decidido reorganizar pequenas coisas sem consultar ninguém.
Por um momento, curto demais para ser chamado de lembran?a, surgiu a ideia de que aquilo poderia ser o pai, cumprindo algum afazer antigo, desses que n?o precisam ser explicados.
Mas a ideia n?o se sustentou.
Afazeres exigem inten??o.
Ali n?o havia nenhuma.
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O sonho seguiu sem conclus?o até deixar de ser sonho.
Ribeiro acordou.
A manh? existia.
N?o havia diferen?a sensorial marcante entre antes e depois do sono. Nenhuma sensa??o de retorno, nenhum ajuste interno. Apenas continuidade.
Ele se levantou.
A névoa permaneceu onde sempre esteve quando nada a convocava. N?o espessou, n?o reagiu. Apenas acompanhou, como parte do mesmo estado.
Ribeiro caminhou pela casa.
N?o procurando.
No quarto, o tapete estava levemente fora de alinhamento. N?o muito, o suficiente para que o pé reconhecesse a irregularidade antes da mente. Ele o levantou e olhou por baixo.
Nada.
O ch?o era ch?o. Sem memória. Sem registro.
Ele recolocou o tapete com cuidado suficiente para que voltasse a cumprir sua fun??o.
Na sala, o tapete n?o estava fora do lugar.
Estava dobrado sobre si mesmo.
N?o como quem trope?a, nem como quem arruma. A dobra era limpa, quase deliberada, mas n?o havia delibera??o ali.
Ribeiro ajoelhou-se e afastou o tecido.
O al?ap?o estava lá.
N?o novo.
N?o revelado.
Desocupado.
A madeira era antiga, mas n?o frágil. N?o rangia sob o toque. N?o reagia ao contato como algo que aguardava ser aberto. Era apenas uma parte da casa que havia deixado de ser utilizada em algum ponto que já n?o importava.
Ribeiro observou.
Nenhuma sensa??o subiu. Nenhuma expectativa se formou. O espa?o abaixo n?o prometia nada, nem perigo, nem resposta, nem origem.
Ainda assim, existia.
Ele abriu o al?ap?o.
O ar que subiu n?o era frio nem quente. N?o carregava cheiro específico. Era ar que havia permanecido ar por tempo suficiente para n?o precisar anunciar sua condi??o.
Uma escada descia.
Simples.
Funcional.
Sem simbolismo.
Ribeiro apoiou o pé no primeiro degrau.
A casa n?o reagiu.
N?o houve resistência estrutural, nem adapta??o. O mundo n?o tentou acompanhar o gesto, nem marcá-lo como importante.
Ele desceu.
N?o porque algo chamava de baixo, n?o porque algo aguardava, mas porque ainda havia um abaixo a permanecer, agora, incluía aceitá-lo.
Quando a tampa se fechou atrás dele, n?o houve sensa??o de encerramento.
Nada foi selado.
Acima, a casa continuou sendo casa.
Abaixo, o espa?o existia sem fun??o definida.
E Ribeiro seguiu, n?o em busca, n?o em queda,
mas em continuidade vertical de um mundo que já n?o precisava responder.

