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# Capítulo 8: O Sussurro Pútrido do Vazio

  # Capítulo 8: O Sussurro Pútrido do Vazio

  Ecos Descendentes

  A descida era uma prova??o silenciosa, pontuada apenas pelo som de pedras soltas sob as botas e o zumbido persistente que a montanha deixara gravado no ar e nos ossos. A ressonancia direta havia diminuído, mas seus ecos permaneciam – uma estática na borda da audi??o, distor??es visuais fugazes na periferia da vis?o, e a sensa??o constante e arrepiante de estar sendo observado por algo vasto e indiferente.

  O caminho era trai?oeiro. A montanha, desperta e irritada, parecia ressentir-se de sua presen?a, deslocando pedras, abrindo fissuras súbitas ou envolvendo-os em névoas densas e desorientadoras que cheiravam a oz?nio e poeira antiga. Cada passo era calculado, cada som parecia um grito potencial no escuro do Vazio, uma lembran?a constante da advertência de Orpheus sobre Skull.

  Encontraram uma saliência relativamente protegida para uma breve pausa. O cansa?o pesava sobre eles, físico e mental. K sentou-se com um gemido abafado, o rosto pálido enquanto examinava o ferimento em seu bra?o. A bandagem improvisada estava suja e o corte parecia inflamado, a cura dificultada pela energia residual do Vazio.

  Zack observou-a em silêncio por um momento, a habitual distancia em seu olhar substituída por uma sombra de preocupa??o. Ele se aproximou, ajoelhando-se ao lado dela sem dizer uma palavra, e tirou um peda?o de pano limpo e um pequeno frasco de unguento de sua bolsa. "Deixe-me ver isso," ele murmurou, a voz baixa.

  K hesitou, surpresa pelo gesto, mas a dor a venceu. Ela estendeu o bra?o. As m?os de Zack, normalmente empunhando a Lua Negra com fúria contida, foram surpreendentemente gentis ao limpar a ferida e aplicar o bálsamo calmante. Enquanto ele refazia a bandagem com cuidado, K quebrou o silêncio tenso.

  "Zack..." ela come?ou, a voz hesitante. "O Menino... como você o encontrou? De onde ele veio?"

  As m?os de Zack pararam por um instante. Ele n?o a encarou, seus olhos fixos na bandagem. Uma ruga apareceu em sua testa, um misto de esfor?o e confus?o. "Eu..." ele come?ou, a voz quase um sussurro. "N?o lembro. Sinceramente, K, mal lembro o que comi ontem." Ele terminou de amarrar a faixa, o nó firme, mas seu olhar estava perdido. "Ele... apenas estava lá. Um dia, ele estava lá."

  A resposta era um beco sem saída, uma parede de névoa t?o impenetrável quanto a que envolvia a montanha. K n?o insistiu, sentindo a verdade dolorosa ou a evas?o deliberada naquelas palavras.

  Enquanto isso, Orpheus mantinha guarda, seus olhos varrendo as encostas sombrias. O Menino estava perto dele, observando-o com aquela intensidade desconcertante. "Por que você voltou?" o Menino perguntou de repente, apontando sutilmente com o queixo na dire??o de Zack, que agora se afastava de K. "Para ele?"

  Orpheus enrijeceu, lan?ando um olhar rápido para Zack, que parecia absorto em seus próprios pensamentos sombrios. Ele se inclinou ligeiramente para o Menino, a voz um rosnado baixo e áspero. "Eu pago minhas dívidas, garoto. Só isso."

  "Que dívida?" o Menino persistiu, impassível.

  "Uma que n?o é da sua conta," Orpheus cortou, endireitando-se, encerrando a conversa.

  A pausa foi curta. Logo estavam se movendo novamente, a tens?o entre eles uma corrente subterranea sob a necessidade de sobrevivência. Enfrentaram mais perigos – um enxame de criaturas insetoides atraídas pela energia residual, que tiveram que despistar com agilidade e ataques precisos e contidos; uma ponte de pedra instável que amea?ava desabar sob seus pés. Encontraram também um dos dispositivos de Milos descartado, um orbe rachado que ainda emitia um leve zumbido, uma lembran?a perturbadora do cientista e seus experimentos.

  Finalmente, após o que pareceram horas de descida cautelosa, alcan?aram uma clareira mais abaixo na montanha. A ressonancia aqui era quase imperceptível, substituída pelo som do vento nas árvores esparsas. Exaustos, eles pararam, a sensa??o de ter escapado do pior trazendo um alívio momentaneo.

  Foi K quem notou primeiro. "O que é aquilo?" ela murmurou, apontando para o céu noturno, agora visível através de uma abertura nas nuvens e na névoa.

  Todos olharam para cima. E o alívio se transformou em gelo nas veias.

  As estrelas n?o estavam paradas. Pareciam fluir, como rios de luz fria. Nebulosas distantes se contorciam, a poeira cósmica se aglomerando, girando, coalescendo em uma forma impossível e aterradora. Diante de seus olhos, abrangendo uma vasta extens?o do firmamento, um olho gigantesco tomou forma – uma íris de galáxias espirais, uma pupila de escurid?o absoluta, cercada por cílios de estrelas cintilantes. Era vasto, silencioso, e estava olhando diretamente para eles.

  N?o havia dúvida. Aquilo n?o era natural. Era o Vazio, consciente, observando-os do abismo entre os mundos.

  O rosto de Zack perdeu toda a cor. Orpheus soltou uma maldi??o baixa, um som estrangulado de puro horror. Eles sabiam o que aquilo significava.

  "Um presságio..." Orpheus sussurrou, a voz embargada. "Skull... ou algo que responde ao chamado dele. A montanha n?o apenas cantou, Zack... ela gritou. E algo... algo lá fora... ouviu."

  Ficaram ali, paralisados sob o olhar indiferente e malevolente do olho cósmico, a amea?a tangível de Milos e da montanha subitamente diminuída por um terror de escala inimaginável. O eco da montanha os havia seguido, e havia chamado a aten??o de algo muito, muito pior.

  Sob o Olhar do Abismo

  O olho no céu n?o piscava. Era uma constante presen?a cósmica, uma mancha de horror sublime gravada na tape?aria da noite. O choque inicial congelou o grupo na clareira, o frio do espa?o infinito parecendo descer e envolvê-los, muito mais penetrante que o vento da montanha.

  Zack sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura. Era um reconhecimento gélido, uma vibra??o profunda que ressoava n?o da pedra sob seus pés, mas de dentro dele, da Lua Negra e dos cantos escuros de sua mente fragmentada. A espada em sua m?o parecia encolher-se, n?o em medo, mas em uma espécie de respeito cauteloso diante de algo incomensuravelmente mais antigo e faminto.

  Orpheus, normalmente a personifica??o da fúria controlada, estava visivelmente abalado. Seus nós dos dedos estavam brancos onde apertava o cabo da katana, e uma fina camada de suor brilhava em sua testa, apesar do frio. "Skull..." ele repetiu, a palavra um sopro áspero. "Ou o que quer que atenda por esse nome. Milos foi um idiota arrogante. Brincou com for?as que nem ele compreende."

  K lutava contra uma onda de vertigem e náusea, a vastid?o indiferente do olho amea?ando dissolver sua própria no??o de identidade. Era a essência do horror cósmico – a percep??o esmagadora da própria insignificancia diante do universo.

  O Menino, em contraste, inclinara a cabe?a para trás, observando o olho com uma curiosidade quase infantil, desprovida de medo. Ele murmurou algo baixo, palavras que se perderam no vento, mas que soaram estranhamente rítmicas, como uma antiga can??o de ninar em uma língua morta.

  "Temos que sair daqui. AGORA!" A urgência na voz de Orpheus quebrou a paralisia. "N?o podemos ficar expostos sob... isso."

  A descida recome?ou, mas a cautela anterior foi substituída por uma pressa febril, quase desesperada. Cada sombra projetada pelas árvores retorcidas parecia se alongar, se contorcer. Cada estalo de galho soava como um passo se aproximando. A paranoia era um veneno se infiltrando em suas mentes, alimentada pelo olhar impassível do abismo acima.

  A regra sobre a conten??o de poder tornou-se uma tortura. Sentiam-se vulneráveis, suas armas e habilidades parecendo brinquedos inúteis diante daquela amea?a cósmica. A frustra??o roía Zack, a Lua Negra pulsando com poder n?o utilizado, um poder que agora ele temia liberar mais do que nunca.

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  Conforme avan?avam para as florestas na base da montanha, os sinais perturbadores se tornaram mais evidentes. árvores com troncos torcidos em espirais impossíveis, como se agonizassem sob uma for?a invisível. Cogumelos que emitiam uma pálida luminescência esverdeada, pulsando em sincronia com um ritmo que só eles pareciam ouvir. O silêncio era pesado, opressor; os animais noturnos haviam se calado, ou fugido, ou... algo pior. Ouviram, à distancia, um uivo longo e distorcido que n?o pertencia a nenhuma criatura conhecida, um som que fez o sangue gelar.

  "A montanha sangrou," K murmurou, examinando um veio de gosma escura e oleosa que escorria de uma fenda na rocha. "E a infec??o está se espalhando."

  O medo compartilhado n?o forjou la?os mais fortes; pelo contrário, desgastou as bordas já frágeis de sua alian?a. Orpheus lan?ava olhares acusadores para Zack, a tens?o entre eles quase explodindo em confronto aberto. "Sua espada... ela n?o está quieta, está?" Orpheus sibilou em um momento de parada for?ada. "Ela gostou do que viu lá em cima? Está chamando por mais?"

  Zack apenas apertou o punho da Lua Negra, sem responder, a mandíbula cerrada.

  K tentava mediar, manter o foco na sobrevivência, mas seu olhar voltava-se constantemente para o Menino. Ele parecia cada vez mais distante, absorto em seu próprio mundo. Em uma parada, K o viu agachado, desenhando símbolos complexos na terra úmida com um graveto – espirais, angulos agudos, formas que pareciam vagamente com constela??es distorcidas ou com o próprio olho no céu. "O que você está desenhando?" K perguntou suavemente.

  "A fome," o Menino respondeu sem levantar os olhos. "Ela tem muitos nomes. Muitas formas. Mas é sempre fome."

  Finalmente, após uma eternidade de descida tensa, eles emergiram da linha das árvores. A montanha Andur se erguia atrás deles, uma silhueta sombria contra o céu ainda marcado pelo olho cósmico (agora talvez um pouco mais tênue, como uma imagem residual na retina do universo, mas inegavelmente presente). Diante deles, uma antiga estrada de terra serpenteava em dire??o ao horizonte escuro.

  Estavam exaustos, física e psicologicamente destro?ados. Mas n?o havia tempo para descanso. A poucos metros da estrada, jaziam os restos de uma carro?a – madeira estilha?ada, mercadorias espalhadas e os corpos... os corpos estavam terrivelmente mutilados, n?o por feras, mas por algo que parecia ter drenado a própria essência deles, deixando apenas cascas secas e contorcidas em express?es de horror indizível. N?o havia sangue. Apenas poeira cinzenta.

  Um arrepio percorreu o grupo. Aquilo era recente. E n?o era obra de Milos ou de suas criaturas.

  Olharam na dire??o que a estrada seguia. Ao longe, as luzes fracas de um vilarejo piscavam erraticamente, como uma vela lutando contra um vento forte. Estariam seguros lá? Ou a perturba??o, a influência do olho, a fome que o Menino mencionara, já havia chegado?

  A alternativa era desaparecer na floresta agora corrompida, evitar a civiliza??o. Mas por quanto tempo poderiam sobreviver sozinhos, com a montanha às suas costas e o olhar do abismo sobre eles?

  A escolha pairava diante deles, t?o sombria e incerta quanto o futuro sob o céu vigiado pelo Vazio.

  O Sussurro Pútrido do Vazio

  Encontraram refúgio precário em uma gruta escondida por rochas e vegeta??o retorcida, um pequeno bols?o de silêncio relativo sob o olhar onipresente do olho cósmico. O ar ainda vibrava com uma tens?o residual, e o zumbido baixo parecia ter se alojado atrás dos olhos. Exaustos, montaram uma vigília tensa.

  K limpava seu ferimento novamente. A pele ao redor estava pálida e fria ao toque, a cicatriza??o anormalmente lenta. Orpheus observava as sombras do lado de fora da gruta, a katana desembainhada, mas foi ele quem quebrou o silêncio tenso. "Já vi isso antes," ele murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. "Ca?adores que passaram tempo demais na Névoa... a pele fica... errada. Come?am a aparecer buracos, como se algo estivesse comendo por dentro. E a mente..." Ele balan?ou a cabe?a. "Falam sozinhos, veem coisas. O Vazio cobra seu pre?o."

  Zack estremeceu involuntariamente, passando a m?o pelo cabelo, sentindo uma coceira inc?moda no couro cabeludo que tentou ignorar. O Menino, sentado quieto perto de K, olhou para Orpheus. "Você bebeu muito uma vez," ele disse com sua habitual falta de tato. "No lugar barulhento. Com o Mestre Zack. Você riu."

  Um lampejo de surpresa cruzou o rosto de Orpheus, seguido por uma sombra de... nostalgia? "A Caneca Furada," ele resmungou, quase um sorriso fantasma tocando seus lábios. "Tinham a melhor cerveja preta de todo o País Poliedro. Até você," ele olhou para Zack, "parecia quase humano naquela noite."

  Zack encontrou o olhar de Orpheus, e por um instante, a hostilidade deu lugar a uma lembran?a compartilhada, um eco de um tempo mais simples, talvez menos sombrio. Um vislumbre fugaz de camaradagem em meio ao desespero. Mas o momento passou t?o rápido quanto veio, engolido pela realidade opressora.

  Decidiram descansar em turnos, suprimindo suas auras ao máximo, tornando-se quase invisíveis energeticamente, uma precau??o instintiva contra o olhar no céu e o que mais pudesse estar ouvindo.

  O sono de Zack n?o trouxe descanso. Foi um mergulho abrupto em um pesadelo vívido e caótico, uma torrente de imagens fragmentadas transmitidas diretamente pelo Vazio. In Medias Res em chamas. Milos, n?o como um guerreiro, mas como um maestro demente, orquestrando a carnificina com um sorriso de êxtase científico, seus tenentes restantes e soldados corrompidos ca?ando impiedosamente os ca?adores remanescentes. Viu Alf, o rosto barbudo contorcido em fúria e desespero, lutando como um le?o encurralado antes de ser dominado por números e for?a bruta. Gritos ecoavam enquanto moradores de Olhos Castanhos eram arrastados de suas casas, seus rostos marcados pelo terror absoluto, reunidos na pra?a principal como gado. Um círculo ritual brilhava no ch?o da pra?a, pulsando com uma energia escura e faminta, alimentado pelos corpos que eram jogados nele. E acima de tudo, flutuando na névoa pútrida que envolvia o bairro, o brilho inconfundível e frio dos olhos violeta do Rei, observando a colheita.

  Zack acordou com um grito sufocado, o corpo banhado em suor frio, o cora??o martelando contra as costelas. O Menino estava ao seu lado, sacudindo seu ombro com uma for?a surpreendente. "Você estava gritando dormindo, Mestre Zack. Sonho ruim."

  "N?o foi sonho," Zack ofegou, sentando-se abruptamente, os olhos arregalados de horror. Ele olhou para K e Orpheus, que haviam sido despertados pelo barulho. "In Medias Res... Milos... ele está lá! Alf... eles est?o matando todos! Um ritual... o Rei!"

  Ele despejou a vis?o em frases quebradas, a urgência e o panico tornando sua voz rouca. K ouviu com uma express?o cética. "Zack, o Vazio prega pe?as, distorce a verdade. Pode ter sido só... o estresse, a montanha..."

  "N?o!" Zack insistiu, agarrando o bra?o de K. "Era real. Eu senti. Alf..."

  Orpheus observava Zack atentamente, seu rosto uma máscara sombria. Ele vira aquele olhar antes, em homens que haviam tocado o Vazio muito de perto. "Sonho ou aviso," ele disse lentamente, a voz grave, "ignorar algo assim, vindo de lá," ele gesticulou vagamente para o céu e para a memória da montanha, "é pedir por desastre. Se há uma chance de que Milos esteja em In Medias Res..."

  A implica??o pairou no ar. O lar deles. Os poucos aliados que tinham. A decis?o foi instantanea, silenciosa. Tinham que voltar.

  Partiram imediatamente, a lembran?a agridoce da Caneca Furada substituída pela urgência desesperada. Moveram-se rápido, a amea?a do olho cósmico momentaneamente eclipsada pela vis?o do massacre. Seguiram a estrada antiga em dire??o ao vilarejo mais próximo, na esperan?a de encontrar um caminho mais rápido ou suprimentos.

  O cheiro os atingiu muito antes de verem as primeiras casas. Um fedor adocicado e pútrido de decomposi??o misturado com algo químico, metálico, que revirava o est?mago. K engasgou, curvando-se e vomitando violentamente ao lado da estrada. O Menino, normalmente impassível, também sucumbiu, seu pequeno corpo tremendo.

  Zack e Orpheus trocaram um olhar sombrio. Aquilo n?o era normal.

  Aproximaram-se do vilarejo com as armas em punho. Os port?es de madeira estavam escancarados, um deles pendendo precariamente de uma única dobradi?a enferrujada. Silêncio. Um silêncio pesado, absoluto, que nem o vento ousava quebrar. As casas estavam escuras, janelas como órbitas vazias. Algumas portas estavam abertas, revelando interiores revirados ou simplesmente vazios. Outras estavam fechadas, mas um olhar mais atento revelava marcas de garras ou tentativas de arrombamento.

  Entraram na rua principal. O fedor era quase insuportável. N?o havia corpos visíveis, mas a sensa??o de morte estava impregnada no ar, no solo, nas paredes das casas. O olho cósmico ainda pairava no céu, seu olhar indiferente testemunhando a desola??o. Havia uma presen?a ali, algo invisível e pesado, uma contamina??o que ia além do físico. O Vazio havia passado por ali, ou talvez... ainda estivesse.

  Pararam no meio da pra?a deserta, cercados pelo silêncio pútrido e pelo olhar do abismo, a vis?o de Zack sobre In Medias Res agora parecendo n?o um pesadelo distante, mas um prenúncio terrivelmente próximo.

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