# Capítulo 35: A Reden??o de Soul
## I. A Cidade dos Passos Sangrentos
A jornada para o País Poliedro exigia uma parada estratégica em **Soul**, a primeira grande metrópole fora dos domínios diretos do Continente Vermelho. Com cerca de trinta mil habitantes, Soul era uma anomalia geográfica: a névoa do Vazio, que devorava as terras vizinhas, n?o ousava tocar seus muros. A cidade era protegida por um cristal colossal encravado em seu centro, que emanava uma luz perpétua e sustentava uma barreira invisível, um domo de pureza em um mundo de sombras.
No entanto, a beleza de Soul era uma máscara cruel.
Orpheus caminhava pelas ruas pavimentadas com cascalhos vermelhos e pretos, pedras afiadas que pareciam projetadas para punir. Para quem n?o usava botas de couro refor?ado, cada passo era uma penitência. O ch?o estava marcado por rastros de sangue seco, deixados por escravos e mendigos que se arrastavam descal?os, suas solas de pé transformadas em carne viva. Ao longo das cal?adas, figuras mutiladas e homens com deficiências graves imploravam por uma misericórdia que a cidade n?o conhecia.
No centro da pra?a principal, erguia-se a fonte **"Grito da Dor"**. Construída sobre o po?o mais profundo da regi?o para distribuir água, ela fora adornada com estátuas magníficas para encantar os turistas. Mas a realidade era sombria: o po?o tornara-se um local de ritual para os desesperados. Diariamente, habitantes saltavam no buraco na esperan?a de que a queda lhes trouvesse o alívio final da morte.
A cidade era o feudo de um homem conhecido como **Plata**, um ca?ador de renome mundial que transformara Soul no maior entreposto de escravos do continente. Ali, vidas eram ferramentas, negociadas entre nobres, militares e empresários que buscavam prazer e controle.
Orpheus, oculto sob seu manto marrom, observava tudo com um desdém silencioso. Ele anotava nomes em seu caderno, mapeando a podrid?o local:
* **Nobre Silvio:** Vindo de Lunares. Fortuna estimada em 10 milh?es. Um homem que comprava silêncio com ouro.
* **Zob:** Filha do General Kramber, o homem mais poderoso do Reino de Luna. Seu rosto era lindo como algod?o, olhos azuis como cristais e cabelos brancos de um anjo. Mas seu sorriso... seu sorriso era o de um monstro.
Ao ver Zob desfilando em suas roupas brancas imaculadas, Orpheus sentiu um gosto amargo na boca. Ele se lembrava dela. Aos doze anos, quando Orpheus era um escravo no Reino de Luna, ele a vira sorrir enquanto crian?as lutavam até a morte em arenas de lama para o entretenimento dos militares e do Rei Violeta Don. Ela era uma sádica que escondia sua natureza sob uma fachada de pureza.
Naquele momento de ódio, Orpheus fechou os olhos e sussurrou uma ora??o. Ele agradeceu aos céus por **Afonso**, o amigo e irm?o que o ajudara a sobreviver àqueles dias sombrios antes de ser resgatado por Zack.
## II. O Ca?ador de Milagres
Durante cinco dias, Orpheus permaneceu em Soul. Ele notou que a seguran?a era pesada; ca?adores de Rank A e B patrulhavam as ruas, exalando suas auras com for?a total para intimidar qualquer dissidente. Mas, em meio a essa exibi??o de poder, Orpheus notou algo diferente.
Havia um ca?ador — ou melhor, uma figura oculta — com trejeitos estranhos. Essa pessoa observava o ambiente n?o com arrogancia, mas com uma cautela desesperada, como se estivesse planejando uma fuga ou buscando alguém. Orpheus inicialmente pensou ser apenas um novato em busca de fama, alguém que morreria no momento em que tentasse se sentar à mesa dos adultos.
Entediado e incomodado pela falta de amor ao próximo naquela cidade, Orpheus decidiu seguir o estranho.
O ritual de Orpheus tornou-se simples: ele comprava um p?o com presunto, sentava-se à distancia e observava enquanto comia. O que ele viu, no entanto, come?ou a pesar em sua consciência. O ca?ador misterioso n?o estava ca?ando. Ele estava curando.
Orpheus viu o estranho dar comida e água aos famintos. Viu-o conversar com os párias e, o mais impressionante, viu-o na fonte "Grito da Dor", impedindo fisicamente os suicidas de saltarem. Sob o toque daquela figura, crian?as sem pernas voltavam a andar, cegos recuperavam a vis?o e homens desnutridos sentiam o vigor retornar aos seus corpos.
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Era algo impensável. Orpheus percebeu que aquele "novato" era, na verdade, um milagre ambulante. E, ao comparar-se com ele, Orpheus sentiu-se um monstro. Ele, que fora salvo da escravid?o por Zack, passara os últimos dias apenas rindo da desgra?a alheia.
## III. Bilua
Certa noite, impulsionado por uma frustra??o que n?o conseguia explicar, Orpheus seguiu a figura até uma casa abandonada nos arredores da cidade. Ele entrou pela janela silenciosamente e parou, paralisado pelo que viu.
No centro do quarto, sentada na beira de uma cama velha, estava uma mulher. Ela vestia apenas roupas íntimas brancas, manchadas de sangue fresco. Seu corpo estava coberto de marcas de ferimentos: cortes profundos, manchas roxas e hematomas que pareciam pulsar. Gemidos baixos de dor escapavam de seus lábios. Seus cabelos eram pretos, curtos até o ombro, e seus olhos... seus olhos eram negros e profundos, idênticos aos de seu mestre, Zack.
Ela olhou para Orpheus com um rosto cansado, marcado por uma cicatriz que cortava da boca ao olho.
— O que veio fazer aqui, Ca?ador? — perguntou ela, a voz fraca, mas firme.
Orpheus ficou surpreso. Ele n?o estava escondendo sua aura? Como ela sabia?
— Como você sabe o que eu sou? — questionou ele.
— Eu me arrisquei demais... uma hora alguém como você apareceria para terminar o servi?o — respondeu ela, ignorando a própria dor.
Orpheus apontou para os ferimentos dela.
— Por que você n?o se cura? Com o poder que eu vi você usar na cidade, essas feridas deveriam sumir em segundos.
A mulher deu um sorriso triste.
— Eu n?o posso curar o que eu escolhi carregar. Eu n?o curo as pessoas, Ca?ador. Eu apenas troco a dor delas pela minha. Eu tomo o sofrimento deles para que eles possam viver.
O silêncio que se seguiu foi esmagador. Orpheus lembrou-se de Zack, de como ele fora salvo, e de como ele mesmo havia se perdido no caminho, esquecendo-se de que o objetivo de sua for?a deveria ser proteger, n?o apenas observar.
— Por que você faz isso? — perguntou Orpheus, aproximando-se.
Ela n?o respondeu. Apenas fechou os olhos, esperando o golpe final.
— Apenas termine logo.
— Qual é o seu nome? — insistiu Orpheus, sua voz agora carregada de uma energia diferente.
Ele se aproximou e olhou profundamente naqueles olhos negros. Bilua sentiu algo que nunca havia sentido antes. Uma aura vermelha come?ou a emanar de Orpheus — n?o era a aura de um assassino, mas algo quente, vivo, cheio de esperan?a e vontade. Era um calor que parecia abra?ar sua alma cansada.
— Meu nome é Bilua — sussurrou ela.
— é um nome lindo — disse Orpheus, dando um sorriso genuíno.
Em um piscar de olhos, ele desapareceu.
## IV. O Banho na Fonte
Bilua acordou na manh? seguinte sentindo-se estranhamente revigorada. Suas feridas haviam cicatrizado durante o sono, e seu corpo parecia pronto para mais um dia de sacrifício. Ela n?o questionou quem era aquele homem; sua mente estava focada nas pessoas de Soul que ainda precisavam dela.
Ela caminhou em dire??o ao centro da cidade, preparando-se para ver o horror de sempre. Mas, ao cruzar os port?es internos, o cenário era outro.
N?o havia escravagistas. N?o havia nobres desfilando. N?o havia guardas.
As cabe?as de Plata, Silvio e Zob estavam fincadas em estacas de madeira na entrada da pra?a. Os militares jaziam mortos em seus postos, e os ca?adores contratados haviam sido abatidos com uma precis?o cirúrgica. A cidade de monstros havia sido decapitada em uma única noite.
Bilua correu até a fonte "Grito da Dor". A água cristalina agora chamava a aten??o, mas no fundo, o sangue dos tiranos se espalhava, tingindo as profundezas de carmesim.
Lá, **dentro da fonte**, estava Orpheus. Ele estava completamente imerso na água fria, lavando seu corpo com uma calma perturbadora. Seus cabelos vermelhos boiavam na superfície enquanto ele esfregava a pele, removendo o sangue daqueles que ele havia dizimado. A água ao seu redor tornava-se rosada à medida que a sujeira do massacre se desprendia dele.
Foi ali que Bilua e Orpheus se olharam. Ele, dentro da fonte, purificando-se do sangue derramado; ela, na borda, testemunhando a liberdade que ele havia comprado com violência. Naquele momento, surgiu uma conex?o profunda, uma troca de almas e um compartilhamento silencioso de informa??es. Ali, entre o sangue e a água, nasceu um amor à primeira vista que mudaria seus destinos para sempre.
**FIM DO CAPíTULO**

