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34. A Porta que aprender a falar demais

  O escuro volta.

  Mas n?o como antes.

  Agora é um escuro consciente.

  Ele nota Ribeiro.

  Ele espera Ribeiro.

  E ele puxa.

  N?o por for?a, por memória.

  Ribeiro sente o ch?o sumir, mas n?o cai.

  Ele simplesmente… deixa de ter ch?o.

  O quarto se desfaz em camadas: a cama vira poeira, a cortina vira um fio de voz, o teto vira um tremor no fundo dos dentes. O Inseto, por um instante, é só um borr?o observando a geometria do espa?o desmoronar.

  A porta n?o cai.

  Ela cresce.

  N?o madeira.

  N?o sombra.

  Algo entre trauma solidificado e arquitetura emocional.

  Ela se abre inteira, n?o uma fresta, n?o um centímetro. Inteira.

  E do outro lado…

  N?o há “outro lado”.

  Há profundo.

  Há fundo.

  Há o lugar no cérebro onde você n?o deveria entrar acordado.

  Ribeiro sente a sensa??o de quando se percebe num sonho:

  “Ah… Eu... n?o devia estar vendo isso...”

  Mas... está.

  A porta respira.

  This book was originally published on Royal Road. Check it out there for the real experience.

  Respira fundo.

  Respira como alguém que segurou lágrimas por anos e agora n?o sabe mais parar.

  Do fundo dela, uma voz surge.

  N?o crian?a.

  N?o adulta.

  Uma voz perfeita demais pra pertencer a um humano.

  — “Você voltou... torto.”

  Ribeiro tenta responder.

  Mas a verdade bate primeiro:

  Ele conhece essa voz.

  Ele n?o deveria.

  Mas conhece.

  — “Eu te fechei errado,”

  ela continua.

  — “N?o tive tempo… n?o tive instru??o… n?o tive ninguém pra me ensinar o que faz uma porta quando o que passam por ela n?o é gente, mas… dor.”

  A forma na escurid?o muda.

  Agora é uma sala.

  Mas n?o uma sala normal.

  é o quarto onde Ribeiro cresceu.

  Só que sem o Ribeiro dentro.

  Como se a memória lembrasse do lugar, mas n?o dele.

  Uma cama pequena.

  Um armário torto.

  Um tapete que nunca foi limpo.

  E, no meio de tudo isso…

  A crian?a.

  Pequena.

  Sentada.

  Abra?ando os próprios joelhos.

  Com o mesmo rosto que o olho da porta mostrava:

  Sem brilho.

  Sem for?a.

  Sem defesa.

  Como um defeito de fábrica emocional.

  O Inseto aparece atrás de Ribeiro com a naturalidade de quem caiu ali porque quis.

  — “Olha que bonito,”

  ele comenta, gentil demais pra ser sincero.

  — “é você, antes mesmo de você inventar o medo.”

  A crian?a ergue o rosto.

  N?o chora.

  N?o treme.

  Ela só pergunta:

  — “é agora que você me tira daqui?”

  A pergunta n?o devia ser pesada.

  Mas é.

  Ela pesa mais que a sala inteira.

  Pesa tanto que as paredes cedem e viram fuma?a.

  Ribeiro sente o corpo reagir como quem está despertando dentro do próprio sonho:

  os dedos ficam mais densos, a respira??o se materializa, o cora??o tenta decidir se bate mais rápido ou para de vez.

  A porta, atrás dele, fecha um pouco, n?o por vontade, mas porque está com medo do que está prestes a acontecer.

  A crian?a levanta.

  Ela tem o mesmo olhar que ele tem hoje quando está prestes a destruir algo que o machucou demais.

  Só que nela… é puro.

  Cru.

  Inalterado.

  — “Se você me tocar,”

  ela diz, sem emo??o,

  — “Eu acordo.”

  O Inseto sorri.

  — “E aí, Ribeiro? Vai acordar seu próprio come?o?”

  O sonho vibra.

  O ar dobra.

  As memórias respiram.

  E Ribeiro, pela primeira vez desde que entrou no quarto, n?o sabe se dar um passo vai salvá-lo…

  … ou abrir de vez o que o destruiu antes mesmo dele nascer inteiro.

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