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35. Acordar em branco

  Ribeiro estica a m?o até sentir a pele da crian?a, e, por um segundo que parece durar um século, tudo se encaixa: o peso da lembran?a, a voz que sabia o nome das coisas, o gosto antigo de medo transformado em resistência. Ele tenta puxar. Quer integrar. Quer fechar a conta com o que foi trancado.

  Mas é como tentar agarrar neblina com luvas: quanto mais for?a aplica, mais se desfaz. A m?o da crian?a escorrega pelos dedos dele como se fosse feita de fuma?a solidificada. Uma compress?o de certeza atravessa o peito, um “n?o” sem som.

  Um estalo, t?o seco quanto um osso quebrando.

  O mundo some.

  N?o é escurid?o nem sonho. é um branco plano, sem textura, que ocupa os olhos antes mesmo de os olhos abrirem de verdade. Ribeiro n?o cai, abre os olhos.

  O deserto está ali.

  N?o o deserto antigo de mapas ou de histórias, mas um deserto neutro: areia fina como cinza de papel, um céu sem cor, um horizonte que parece ter sido pintado com a mesma m?o distraída que fez nuvens de giz em uma lousa. N?o há vento. N?o há cheiro. Só ele, o ch?o frio por baixo da "pele", e o silêncio, pesado como uma tampa.

  Ao lado do seu cotovelo, cal?ando a própria distancia entre o sonho e o corpo, está o menino. Menino e deus, pequena entidade que sorri com a autoridade de quem pode dobrar o tempo sem esfor?o. Na m?o, um graveto. Ele está mexendo a areia, desenhando riscos, testando limites.

  — "Por que você tá deitado aí?"

  pergunta, sem pressa, como se formulasse uma pergunta prática sobre um experimento fracassado.

  Ribeiro junta as pálpebras. Tenta lembrar do quarto aberto, da porta respirando, da crian?a que pedira para ser tirada. Tenta lembrar do momento do toque. Tenta lembrar de si mesmo. As memórias chegam em fragmentos que tilintam e morrem: um rangido, um cheiro de cortina velha, um estalo de livro. Nada se fixa. é tudo superfície lisa, sem etiqueta. Ele acordou em branco.

  — Eu…

  Tenta dizer. A palavra vai e volta, escorrega. N?o há nada para segurar.

  O menino inclina a cabe?a, curioso. Sem maldade explícita, apenas uma indiferen?a que equilibra a curiosidade: se algo n?o funciona, por que esconder a constata??o?

  — "Tá diferente."

  diz o menino, apontando com o graveto para o ombro dele, depois para os bra?os, depois para o peito.

  — "Por que você tá mais definido?"

  Ribeiro olha para si mesmo como se fosse outra pessoa. Sob a areia abaixo dele, sente algo novo: os contornos dos músculos marcados, a tens?o mínima que antes só aparecia quando precisava correr. é como acordar e descobrir que a sombra do seu corpo foi redesenhada durante a noite. N?o há vaidade, apenas estranhamento. Uma pe?a do quebra-cabe?a físico mudou de lugar sem explicar por quê.

  Ele se senta com mais cuidado do que deveria. A areia faz um som seco. O menino continua desenhando círculos com o graveto, como se marcasse as horas em que alguém falha.

  — "Você tentou pegar alguma coisa?"

  pergunta o menino, calmo.

  — "Ou alguém tentou te dar?"

  A pergunta acende um ponto cego dentro de Ribeiro: a sensa??o de ter alcan?ado e n?o conseguido. N?o conseguiu segurar a crian?a, n?o conseguiu segurar a memória. Há uma frustra??o fina, uma lamina de derrota que queima sem ferir. Ele tenta falar sobre o quarto, sobre a porta que respirava, sobre a voz que disse “você voltou torto”, mas as frases n?o se formam. As imagens evaporaram. Restou apenas o músculo noutra posi??o e a pergunta do menino.

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  — "Eu senti algo"

  sai, curto, arrastado.

  — "Tentei... mas n?o ficou."

  O menino sorri, um sorriso que carrega a eternidade nos cantos. Ele cutuca a areia mais perto do peito de Ribeiro, onde, sobre a pele de seu peito, se formou um manto de fuma?a com cores variando suavemente, e por trás dele algo leve lateja, um ruído quase inaudível, como se alguém batesse com a unha do lado de dentro de uma caixa.

  — "Tem coisa aí"

  observa ele, apontando para a dire??o do som.

  — "Ou tem vontade. às vezes vontade finge ser coisa."

  Ribeiro olha. Com o tempo, seus olhos captam detalhes que a mente n?o quer oferecer: uma pequena queimadura no canto do manto que n?o mutava, como se algo quente tivesse encostado; um pedacinho de papel cravado em sua perna, com as bordas chamuscadas; um cheiro residual, t?o fraco que parece imaginar fogo. Cada pista é uma ilha solitária, conex?es possíveis, mas sem ponte.

  O menino pega o graveto e, sem cerim?nia, cutuca o pedacinho de papel até que ele se solte. Ribeiro estica a m?o, hesita, e pega o papel. A caligrafia é trêmula, uma única palavra escrita com pressa: "LIMITE". A tinta tem um halo de cinza.

  — "Limite?"

  o menino lê, sem surpresa.

  — "Interessante palavra. Boa para marcar o que n?o deve ser atravessado. Ou o que estava sendo guardado."

  Ribeiro segura a palavra como se fosse um mapa de costas rasgadas. Tenta lembrar o gosto do quarto, a voz da porta, a crian?a que sorriu antes com ferro na fala. Nada volta. Um branco que n?o é falta de memória, mas uma censura voluntária: aquilo foi removido para protegê-lo, ou para castigá-lo; ele n?o sabe.

  — Por que eu n?o lembro?

  pergunta ele, porque precisa dizer uma coisa em voz alta.

  — "Talvez você n?o mere?a lembrar"

  responde o menino, com aquela neutralidade que amarga.

  — "Ou talvez você tenha decidido n?o lembrar. Coisas assim acontecem quando se tenta pegar um come?o sem ter onde guardar o resto."

  Ribeiro franze a testa. O menino se aproxima, sem pressa, e cutuca a "pele" do bra?o dele com a ponta do graveto. A sensa??o é estranha: n?o dói, mas ressoa, como se acordasse sinapses adormecidas. Uma memória muito pequena se abre, o calor de uma m?o que segurou outra m?o, a textura de um pano, o brilho de um livro por um segundo antes de uma chama. é suficiente para balan?ar algo dentro dele, mas n?o o bastante para reconstruir.

  O menino observa, satisfeito pela pequena perturba??o.

  — "Você tá mais definido..."

  repete, quase para si.

  — "Talvez agora segure melhor o que vier. Mas lembre-se: ser definido n?o é a mesma coisa que saber por que você existe. às vezes, o corpo toma forma pra segurar culpa. às vezes, pra carregar fardo. E às vezes é só inven??o de um tempo que n?o te pertence."

  Ribeiro aperta o papel na m?o até os dedos ficarem brancos (haha, como se já n?o estivessem). A palavra "LIMITE" arde com um significado que ele ainda n?o compreende por completo. Do lado de fora da perna, onde antes n?o havia nada, surge um som: um estalo fraco, vindo de algo pequeno enterrado na areia. Ele cava com as m?os e encontra um fragmento que parece ser couro queimado; dentro dele, resquícios negros, como resina de livro.

  O menino observa sem pressa. Depois, ergue o graveto e desenha um risco no ar, uma linha que separa o espa?o entre a areia e o horizonte.

  — "Você pode se levantar"

  diz ele, simples.

  — "Ou pode ficar aí deitado. Ambas as op??es est?o abertas. Só saiba: se for levantar, vai ter coisa querendo que você goste de ser exatamente como era. E se ficar, vai ter coisa querendo que você esque?a o quanto tentou ser inteiro."

  Ribeiro leva um tempo. Olha para o peda?o de couro, para o papel, para o corpo que n?o é mais exatamente o mesmo. O branco do deserto parece n?o cobrar pressa; o menino n?o exige. Há uma espécie de julgamento calmo no olhar infantil, n?o punitivo, apenas observador.

  Ele se levanta.

  A areia cede. O corpo reSponde com prEcis?o nova, como uma máquina que foi recalibrada enquanto dormia. Quando fica de pé, Ribeiro sente que algo dentro dele se alinha: a ausência das memórias pesa, mas o fato de haver pistas, uma palavra, um peda?o de couro, um cheiro de cinza, é um fio esticado entre o antes e o depois.

  O menino sorri, satisfeito. Dá-lhe o Graveto como se passasse uma tocha.

  — "Caminhe, ent?o."

  diz.

  — "E cuidado com o que acha de sólido. Nem sempRe é pEdra."

  Ribeiro guarDa o graveto como se fosse um instrumento de medida. Olha uma última vez para O menino, que já deseNha Outra marca na areia, e percebe nele algo que n?o é nem iNimigo nEm amigo: um reVisOr de destinos, uma crian?a que gosta de testar as coisas, mesmo sendo aquele que o for?ou a se tornar quem é agora.

  Quando come?a a andar, a arEia se fecha atrás dele sem ruído. O horIzonte continua sem cor, mas o corpo responde. No bolso, o papel com a palavra "LIMITE" dobra-se como se tivesse vida pRópria. No fundo da garganta, uma lembran?a minúscula insiste: o livro, O estalo, o fogo. N?o há rosto para colocar na cena. Apenas uma sensa??o: algo que o escolheu e algo que o acordou em branco.

  E, quando a figura do menino desaparece no ponto onde o céu encontra a areia, a voz dele volta, levíssima, como um nome soprando num ouvido:

  — "Se algum dia você lembrar de onde veio, n?o comece por pular. Comece por abrir o bolso."

  Ribeiro aperta o papel. Respira. Caminha. O deserto aceita passos e, a cada passo, a impress?o de que o próximo capítulo está menos pronto e mais esperando.

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