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66... A convivência

  Ribeiro só percebeu que a trilha subia quando o corpo come?ou a reclamar.

  N?o foi cansa?o. Foi descompasso.

  O vale permanecia o mesmo, árvores imóveis demais, pedras polidas pela água, o ar carregado de umidade antiga, mas cada passo parecia chegar um instante antes dele. Como se o mundo estivesse correto e fosse ele quem precisasse se alinhar.

  O tra?o no peito pulsou.

  Dessa vez, ele n?o levou a m?o.

  — Isso vai continuar acontecendo?

  Perguntou, mantendo o ritmo.

  O silêncio veio primeiro. N?o vazio, atento.

  “N?o.”

  A voz surgiu como algo que sempre esteve ali, apenas n?o ouvido.

  “Só quando você fingir que está sozinho.”

  Ribeiro respirou pelo nariz.

  — Ent?o você fala quando quer.

  “Eu falo quando você para de me empurrar para fora.”

  O caminho estreitou. Galhos baixos exigiram que ele abaixasse a cabe?a. Tudo parecia normal demais para justificar o que havia mudado, e isso o incomodou mais do que qualquer distor??o visível.

  — Aqua disse que isso cresce.

  “Ela observou corretamente.”

  — Como?

  A pausa durou mais.

  “Quando você n?o recua.”

  Stolen story; please report.

  Ribeiro parou.

  à frente, o rio se abria, largo, calmo demais para esconder as pedras sob a superfície. Ele conhecia aquele trecho. Já havia atravessado antes. Sempre desviando do centro.

  — Recua de quê?

  O calor no peito girou, lento, como algo buscando posi??o.

  “De sentir.”

  Ele fechou os olhos por um instante. O rito veio inteiro: o azul instável, a crian?a-sombra, o nome ecoando como algo que já existia antes de ser dito. Abriu os olhos antes que aquilo se tornasse suportável.

  — Isso n?o parece uma escolha justa.

  “Escolhas n?o existem para serem justas.”

  O rio murmurava. A corrente central arrastava com for?a contida.

  — Você é perigo?

  A resposta veio sem hesita??o.

  “Eu sou continuidade. Um dia, quase fui.”

  Ribeiro soltou um riso curto.

  — ótimo. Agora tenho uma voz interna enigmática.

  “Você sempre teve. Só n?o escutava.”

  Ele avan?ou até a margem. A água subiu fria pela bota, depois pela canela. O corpo reagiu como esperado, arrepio, ajuste de equilíbrio, mas algo mais profundo avaliava n?o a corrente, e sim a inten??o por trás do passo.

  — Se eu atravessar pelo centro…

  Come?ou.

  “Você pode cair.”

  — E se contornar?

  “Você chega intacto.”

  Ribeiro ficou parado, água batendo contra a perna.

  — Ent?o por que escolher o centro?

  O pulso no peito desacelerou.

  “Porque você saberá quem atravessou.”

  Silêncio.

  Ribeiro inspirou fundo. N?o buscou coragem. N?o buscou controle. Apenas aceitou a decis?o sem tentar torná-la leve.

  E entrou.

  A corrente puxou com mais for?a do que ele lembrava. A água subiu até a coxa. O ch?o cedeu. Por um instante, o equilíbrio falhou, e algo respondeu antes do pensamento.

  N?o for?a.

  Alinhamento.

  O eixo no peito aqueceu, preciso. Ribeiro n?o resistiu ao rio; cedeu onde precisava, firmou onde podia. A travessia n?o ficou fácil.

  Ficou honesta.

  Quando alcan?ou a outra margem, o mundo n?o reagiu.

  Nenhuma luz. Nenhum som novo.

  Mas também n?o houve rejei??o.

  Ele apoiou as m?os nos joelhos, respirando fundo. O tra?o no peito estava mais definido agora. N?o maior. Mais decidido.

  — Isso foi você?

  Perguntou.

  “Foi você que n?o usou o compasso.”

  N?o havia orgulho na resposta.

  Só constata??o.

  Ribeiro se endireitou e seguiu adiante. Pela primeira vez desde o rito, o caminho n?o exigia pressa, nem fuga.

  A convivência n?o era uma invas?o.

  Era um acordo em andamento.

  E o silêncio confortável de antes n?o era mais uma op??o.

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