home

search

67. O que permanece

  A noite n?o caiu de uma vez.

  Ela se acumulou.

  O céu escureceu em camadas, como se o mundo estivesse testando até onde poderia apagar sem perder a forma. Ribeiro caminhou até onde o terreno permitido e armou abrigo entre raízes expostas e pedras antigas. O vento já n?o é protegido pela resposta. Apenas descansando.

  Quando se deitou, o corpo cedeu antes da mente.

  N?o houve ritual.

  N?o houve chamado.

  O sono veio como continuidade.

  Ele estava na casa.

  N?o é uma lembran?a inteira, apenas o espa?o exato onde a memória sempre come?ava a falhar.

  O quarto era pequeno. Madeira antiga, rangendo com o vento que atravessava as frestas como se revelasse o caminho. A cama estava onde sempre esteve. O teto baixo. O cheiro de terra úmida preso às paredes.

  Ribeiro sentou-se.

  N?o havia estranhamento.

  Apenas aten??o.

  Ent?o, ou?a.

  Um som seco, irregular. Madeira contra madeira, n?o o estelo comum de uma porta, mas algo mais contido, abafado. Como tábuas sendo deslocadas com cuidado excessivo. Logo depois, outro som se arrastou pelo ch?o.

  Tecido.

  Pesado.

  Ele franziu o cenho.

  O som vinha da oficina.

  N?o da área de trabalho, da outra.

  Uma sala que nunca foi permitida.

  A lembran?a veio inteira dessa vez, inc?moda como algo que sempre esteve à margem: a porta mantida fechada mesmo nos dias de calor, a chave presa ao pesco?o do pai, o aviso repetido sem varia??o no tom.

  — “Ali n?o.”

  Nunca houve explica??o longa. Apenas o complemento seco, quase ritualístico:

  — “é onde ficam as obras-primas.”

  Ribeiro falou-se devagar. O ch?o do quarto n?o rangeu, como sempre. Deu dois passos antes de parar.

  O tapete.

  A imagem surgiu sem esfor?o: o tapete grosso da sala de estar, tecido pela m?e, pesado demais para alguém mover sem reclama??o. Ainda assim, o som agora era controlado, dividido em etapas.

  If you spot this tale on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation.

  Arrasto curto.

  Pausa.

  Outro arrasto.

  N?o havia pressa.

  Havia método.

  O eixo no peito se ajustou, n?o em alerta, mas em reconhecimento. Algo dessa sequência n?o combinava com improviso humano.

  A.. outra.

  O pai ajoelhado perto da bancada, limpando as m?os antes de falar, como se o nome exigisse respeito.

  — "Esses três você n?o toca. Nem por curiosidade."

  Ele lembrou dos nomes. Nunca esqueci.

  Auréola de Asmodeus.

  O Colar das Mil Almas.

  O Relógio da Toca.

  Na época, soaram como palavras grandes demais para caber num escritório de madeira e pedra. Ele perguntou o que fez.

  O pai apenas nega com a cabe?a.

  Perguntas sobre sabedoria recebidas em silêncio.

  Perguntas sobre o Leviat? receberam desvios.

  Perguntas sobre por que ele era t?o diferente da m?e… nunca foram respondidas.

  O som voltou.

  Madeira deslizando. Um clique surdo, preciso demais para ser casual. O tipo de fechamento que n?o aceita erro nem reprodu??o.

  Depois, silêncio.

  N?o o silêncio.

  O silêncio que permanece quando algo foi colocado exatamente onde deveria estar.

  Ribeiro n?o configuro.

  N?o por medo, por entendimento.

  Algumas estruturas n?o falham porque s?o fortes.

  Falham quando s?o vistos cedo demais.

  O vento atravessou a casa inteira, fazendo-a estalar como um organismo antigo se acomodando. Ribeiro viu ent?o que respirava diferente.

  Mais devagar.

  Como se o corpo soubesse que aquilo n?o pedia fato, apenas registro.

  Uma certeza incompleta se formou, pesada demais para ser nomeada.

  O pai n?o escondia coisas por culpa.

  Esconda porque certas existências excluir distancia para continuar existindo.

  Ribeiro piscou.

  Acordou antes do manh?.

  O abrigo ainda estava firme. ó mundo, intacto. Mas algo havia mudado de posi??o dentro dele, n?o acrescentado, n?o ampliado. Apenas deslocado para onde sempre deveria ter estado.

  Ele se sentou e passou a m?o pelo rosto.

  Por um instante, tive vontade de contar.

  N?o sabia o quê.

  Nem para quem.

  Apenas a sensa??o de que, se tocasse no que ainda estava quieto, algo irreversível come?aria.

  Ele se soou e caminho.

  A montanha ainda estava longe.

  Mas agora Ribeiro sabia:

  nem toda porta existe para ser aberta.

  Algumas sustentam tudo o que vem depois.

  Fim do capítulo.

  Deu a dúvida né, t? curioso para ver a opini?o de vocês: quem vence num X1 franco?

  


  


Recommended Popular Novels