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# Capítulo 13: Quando o Predador Sorri

  # Capítulo 13: Quando o Predador Sorri

  O silêncio que se seguiu foi como o vácuo antes de uma explos?o.

  Milos e Ygon encaravam a figura que um dia havia sido Zack. Os olhos completamente negros, os cabelos brancos arrepiados como agulhas, os dentes afiados em um sorriso desumano. A Lua Negra vibrava em sua m?o, ansiosa, faminta, como um animal prestes a ser solto após longo confinamento.

  Milos foi o primeiro a atacar, lan?ando uma série de agulhas encantadas que distorciam o espa?o ao seu redor. Em qualquer outra circunstancia, contra qualquer outro oponente, teriam sido letais. Mas antes que pudessem atingir seu alvo, Zack simplesmente... desapareceu.

  N?o foi um movimento rápido. Foi como se ele tivesse deixado de existir em um lugar e surgido em outro. Subitamente, estava atrás de Milos, t?o próximo que poderia sentir sua respira??o na nuca.

  "Muito lento," sussurrou Zack, sua voz um coro dissonante de múltiplos tons sobrepostos.

  Milos congelou, o terror paralisando seus músculos. Esperou pelo golpe fatal, pelo corte que separaria sua cabe?a de seu corpo.

  Em vez disso, sentiu apenas um toque leve em seu ombro – como um amigo chamando sua aten??o, ou um predador avisando sua presa que a ca?ada havia come?ado.

  Quando Milos finalmente conseguiu se virar, Zack já estava a vários metros de distancia, observando-o com uma curiosidade fria e desapaixonada. Foi ent?o que a compreens?o o atingiu como um golpe físico: Zack poderia tê-lo matado instantaneamente. Mas havia escolhido n?o fazê-lo.

  Estava brincando com ele.

  Ygon, vendo a oportunidade, lan?ou-se em um ataque selvagem. Seu corpo massivo se movia com uma velocidade surpreendente, sua lamina serrilhada cortando o ar em dire??o ao pesco?o de Zack. Era um golpe poderoso o suficiente para decapitar um homem comum.

  Zack nem mesmo se dignou a olhar em sua dire??o. Com um movimento casual de seu dedo indicador, desviou a lamina como se fosse feita de papel. A for?a do impacto reverso enviou Ygon voando através da pra?a, atravessando a parede de um edifício próximo em uma explos?o de pedra e poeira.

  E ent?o, Zack come?ou a rir.

  N?o era uma risada humana. Era um som que parecia vir de múltiplas gargantas simultaneamente, em diferentes tons e timbres, como se um coro de entidades estivesse usando sua boca como instrumento. O som ecoou pela pra?a vazia, reverberando nas paredes, fazendo o próprio ar tremer com sua dissonancia antinatural.

  "Isso é tudo?" perguntou ele, inclinando a cabe?a como um pássaro curioso. "é tudo que têm para oferecer?"

  Milos recuou, seus olhos calculando freneticamente rotas de fuga, possibilidades, qualquer chance de sobrevivência. Mas antes que pudesse agir, Zack come?ou a se mover.

  Era como uma dan?a macabra. Seus movimentos eram fluidos, quase graciosos, mas completamente alheios a qualquer coreografia humana. Cada passo deixava rastros de escurid?o no ar, como tinta derramada em água, formando padr?es que feriam os olhos ao tentar compreendê-los.

  Desesperado, Milos lan?ou m?o de seus artefatos mais poderosos. Círculos de conten??o proibidos se formaram no ch?o, brilhando com runas antigas que deveriam ser capazes de prender até mesmo dem?nios do Vazio. Líquidos corrosivos que poderiam dissolver qualquer matéria conhecida voaram de pequenos frascos em dire??o a Zack.

  Nada funcionou.

  Zack atravessou os círculos de conten??o como se fossem desenhos infantis feitos com giz. Os líquidos corrosivos evaporaram antes mesmo de tocá-lo, transformando-se em fuma?a negra que ele inalou com aparente prazer.

  "Fascinante," comentou ele, sua voz ecoando estranhamente. "Você realmente acredita que pode me conter com esses brinquedos?"

  O desespero come?ou a crescer dentro de Milos como uma onda negra. Sua confian?a inicial, sua cren?a de que o Vazio o favorecia, de que ele era o escolhido para completar o ritual, tudo desmoronava diante da realidade esmagadora do poder que enfrentava.

  "Vazio!" gritou ele para o céu, sua voz quebrando. "Me ajude! Você falou comigo uma vez! Por favor!"

  Apenas o silêncio respondeu.

  Nesse momento, Ygon emergiu dos escombros do edifício. Sangue escorria de um corte profundo em sua testa, mas seus olhos brilhavam com uma determina??o feroz, quase maníaca. Ele atacou novamente, desta vez com técnicas cada vez mais selvagens e desesperadas – golpes que sacrificavam defesa por poder bruto, movimentos que colocariam todo seu peso e for?a em cada ataque.

  Zack observou a aproxima??o com um sorriso que se alargava além dos limites do que um rosto humano deveria permitir. Desta vez, ele n?o desviou. Permitiu que a lamina de Ygon atingisse seu ombro, cortando profundamente.

  N?o houve sangue. Apenas escurid?o vazando da ferida, como fuma?a negra solidificada.

  O sorriso de Zack se alargou ainda mais.

  "Isso é tudo que pode fazer?" perguntou ele, sua voz carregando uma divers?o cruel. "Vamos, Ygon. Você queria tanto me enfrentar sem conten??o. Aqui estou eu. Mostre-me seu poder."

  Ygon atacou novamente e novamente, cada golpe mais desesperado que o anterior. Zack permitiu que alguns o atingissem, apenas para demonstrar que n?o causavam dano algum. A escurid?o vazava momentaneamente das feridas antes de se solidificar novamente, como se seu corpo fosse feito de sombras em vez de carne e sangue.

  Foi ent?o que Zack finalmente desembainou completamente a Lua Negra.

  A lamina parecia absorver toda a luz ao seu redor, criando um vácuo de escurid?o que distorcia a própria percep??o. N?o era apenas negra – era a ausência de cor, a nega??o da luz, um peda?o do Vazio materializado no mundo físico.

  Com um movimento casual, quase entediado, Zack fez um único corte no ar. A lamina deixou um rastro negro que permaneceu, como uma ferida na própria realidade. O corte pairou no ar por um momento antes de come?ar a se expandir lentamente, como uma rachadura em vidro.

  Quando atingiu o ch?o, a pra?a inteira tremeu. Uma fissura se abriu no pavimento, estendendo-se por vários metros, profunda o suficiente para engolir um homem inteiro.

  "A Lua Negra tem fome," explicou Zack casualmente, sua voz distorcida ecoando estranhamente. "E cada golpe a alimenta. Cada corte é mais forte que o anterior."

  Para demonstrar, ele fez um segundo movimento, aparentemente com a mesma for?a que o primeiro. Desta vez, a lamina cortou uma estátua próxima ao meio, a pedra maci?a cedendo como se fosse manteiga.

  "No terceiro corte, ela pode dividir um edifício," continuou ele, fazendo exatamente isso – um prédio inteiro a dezenas de metros de distancia foi cortado ao meio, suas metades desmoronando lentamente em uma nuvem de poeira e escombros.

  "No sétimo corte, poderia dividir este bairro ao meio." Seus olhos negros fixaram-se em Milos, depois em Ygon. "No décimo, a cidade inteira."

  Foi nesse momento que a verdadeira compreens?o atingiu ambos. N?o estavam lutando contra um homem poderoso. Nem mesmo contra um monstro. Estavam diante de algo que n?o deveria existir neste plano da realidade – uma manifesta??o do próprio Vazio, usando o corpo de Zack como um recipiente temporário.

  Milos come?ou a calcular freneticamente uma rota de fuga. Sua mente científica, mesmo em panico, ainda buscava uma solu??o, uma saída, qualquer chance de sobrevivência.

  Ygon, por outro lado, sentiu uma emo??o contraditória crescer dentro dele. Terror, sim – um medo primordial que fazia seus ossos tremerem. Mas também uma excita??o mórbida, quase sexual em sua intensidade. Finalmente estava vendo o verdadeiro poder de Zack, sem conten??o, sem misericórdia. Era tudo que sempre havia desejado, mesmo que significasse sua própria destrui??o.

  "Sim," sussurrou ele, um sorriso maníaco se espalhando por seu rosto marcado por cicatrizes. "Sim. Mostre-me tudo."

  Zack inclinou a cabe?a, como se estivesse intrigado com a rea??o. Ent?o, com um movimento rápido demais para os olhos acompanharem, ele tocou o bra?o de Milos com a ponta da Lua Negra – apenas um arranh?o superficial, quase um carinho.

  Inicialmente, parecia insignificante. Milos olhou para o pequeno corte, quase aliviado por ser t?o mínimo.

  Ent?o, uma mancha negra surgiu no ponto do corte – n?o sangue, mas algo como tinta viva ou petróleo. A mancha come?ou a se espalhar lentamente pelo bra?o de Milos, consumindo sua pele centímetro por centímetro.

  "Chama-se Lepra," explicou Zack com uma calma perturbadora. "Uma das habilidades especiais da Lua Negra. Vai consumir seu bra?o primeiro. Depois seu torso. Finalmente, seu cérebro." Ele fez uma pausa, seu sorriso desumano se alargando. "A menos que você corte a parte infectada."

  Milos olhou horrorizado para seu bra?o, onde a mancha negra continuava a se espalhar, agora alcan?ando seu cotovelo. Ele tentou vários feiti?os e po??es, retiradas apressadamente de bolsos escondidos em suas vestes. Nada funcionou. A mancha continuava a avan?ar, implacável como a maré.

  O panico tomou conta dele completamente. Com movimentos frenéticos, Milos sacou um de seus próprios artefatos – uma pequena lamina circular que vibrava com energia arcana. Sem hesitar, ele a posicionou acima do ombro, onde a mancha ainda n?o havia chegado.

  O grito que se seguiu foi de uma agonia pura e primitiva. A lamina cortou através de carne, osso e tend?o, separando o bra?o infectado do resto do corpo. Sangue jorrou da ferida, encharcando suas vestes, formando uma po?a aos seus pés.

  Milos caiu de joelhos, seu rosto pálido como papel, tremendo com o choque e a perda de sangue. Mas a mancha negra havia sido contida – o bra?o amputado jazia no ch?o, completamente consumido pela escurid?o, como se tivesse sido mergulhado em tinta do mais puro negro.

  Zack observou tudo com uma curiosidade clínica, como um cientista observando uma rea??o particularmente interessante em um experimento.

  ---

  Na terceira casa da Rua dos Ferreiros, K lutava para seguir as instru??es do pergaminho que Orpheus lhe entregara. O Menino ainda estava inconsciente, deitado em um sofá empoeirado. Talia permanecia ao seu lado, seus olhos arregalados fixos nas janelas, como se esperasse que algo terrível entrasse a qualquer momento.

  Foi quando K come?ou a sentir. Primeiro, como um zumbido distante, quase imperceptível. Como o som de um inseto muito pequeno voando perto de seu ouvido. Ela balan?ou a cabe?a, tentando se livrar da sensa??o.

  O zumbido cresceu, transformando-se em sussurros – vozes múltiplas falando simultaneamente em uma língua que ela n?o compreendia, mas que de alguma forma parecia familiar, como se fossem palavras que ela conhecera antes de nascer e depois esquecera.

  "Você está bem?" perguntou Talia, notando a express?o perturbada de K.

  K n?o respondeu. N?o conseguia. As vozes estavam ficando mais altas, mais insistentes. E agora havia imagens também – flashes de coisas que n?o deveriam existir, criaturas que n?o poderiam ser descritas em qualquer linguagem humana, geometrias impossíveis que faziam seu cérebro doer ao tentar compreendê-las.

  Seu corpo come?ou a tremer. N?o era um tremor comum, de frio ou medo. Era como se cada célula de seu corpo estivesse vibrando em uma frequência diferente, tentando se separar do todo.

  "K?" A voz de Talia parecia vir de muito longe.

  K caiu no ch?o, seu corpo convulsionando violentamente. Espuma come?ou a se formar em sua boca enquanto seus olhos reviravam, mostrando apenas o branco. As vis?es em sua mente se intensificaram – abismos sem fundo, olhos que observavam de dimens?es além da compreens?o, bocas que devoravam galáxias inteiras.

  Talia recuou, horrorizada. Mas ent?o, ela também come?ou a ouvir. N?o eram vozes para ela, mas um único comando, repetido incessantemente, crescendo em volume até que era tudo que podia ouvir:

  *Acabe com isso. Acabe com isso. ACABE COM ISSO.*

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  Como em transe, Talia se levantou. Seus movimentos eram mecanicos, como se seu corpo n?o fosse mais seu. Ela caminhou em dire??o à cozinha, seus olhos vidrados e distantes.

  A faca estava lá, sobre a mesa. Longa, afiada, perfeita para o propósito. Seus dedos se fecharam ao redor do cabo.

  *Acabe com isso. Acabe com isso. ACABE COM ISSO.*

  Lentamente, ela levou a lamina em dire??o ao próprio pesco?o. A ponta tocou sua pele, uma pequena gota de sangue se formando onde a press?o era aplicada.

  Foi quando a porta se abriu violentamente. Orpheus entrou como um furac?o, seus olhos imediatamente avaliando a situa??o. Sem hesitar, ele se moveu – mais rápido do que deveria ser possível – e atingiu um ponto específico no pesco?o de Talia.

  A faca caiu no ch?o com um estrépito metálico. Talia desabou logo em seguida, inconsciente antes mesmo de atingir o piso.

  Orpheus a pegou antes que caísse completamente, colocando-a gentilmente ao lado do Menino no sofá. Ent?o voltou sua aten??o para K, ainda convulsionando no ch?o.

  "Resista," murmurou ele, mais para si mesmo do que para ela. "Só mais um pouco."

  Com movimentos frenéticos, Orpheus voltou ao pergaminho, seus dedos tremendo enquanto tra?ava símbolos complexos no ar. Palavras em uma língua antiga fluíam de seus lábios – n?o eram encantamentos, mas algo mais primitivo, como se estivesse falando diretamente com a estrutura da realidade.

  Enquanto trabalhava, memórias o assaltavam – flashes de um passado que ele tentara enterrar. A mesma cena, anos atrás. O mesmo terror. Os mesmos olhos negros de Zack, a mesma aura de morte e destrui??o.

  Um reino inteiro caindo. Pessoas morrendo instantaneamente, como velas sendo apagadas por um vento súbito. E Zack no centro de tudo, os olhos negros, a Lua Negra em sua m?o, cortando através da realidade como se fosse papel.

  "Ele nunca me atacou," murmurou Orpheus para si mesmo enquanto continuava a desenhar símbolos. "Por algum motivo, me poupou. Mas o pre?o de me salvar foi a queda de um reino inteiro."

  Seu olhar se desviou brevemente para o Menino inconsciente. Lembrou-se de momentos estranhos que havia observado – o Menino falando com a Lua Negra quando pensava que ninguém estava olhando, a espada vibrando em resposta, como se estivessem tendo uma conversa que ninguém mais podia ouvir.

  Finalmente, Orpheus completou o último símbolo. Por um momento, nada aconteceu. Ent?o, uma luz azul-pálida come?ou a emanar dos desenhos, crescendo em intensidade até formar uma cúpula protetora ao redor da casa.

  O efeito foi imediato. O zumbido e a press?o diminuíram instantaneamente. As convuls?es de K come?aram a diminuir, sua respira??o se normalizando gradualmente.

  Orpheus caiu de joelhos, exausto. Havia conseguido. Por enquanto, estavam protegidos.

  ---

  Na pra?a central, Zack subitamente mudou seu foco. Ignorando Milos, que ainda estava de joelhos segurando o coto sangrento de seu bra?o, e Ygon, que observava com uma mistura de terror e fascina??o mórbida, ele se virou para as vítimas do ritual.

  Centenas de corpos ainda estavam dispostos em padr?es geométricos pelo ch?o da pra?a. Alguns claramente mortos, outros ainda respirando fracamente, presos em um estado entre a vida e a morte.

  Zack caminhou entre eles, seus movimentos agora mais deliberados, menos fluidos. Ele parecia estar procurando algo – ou alguém.

  Finalmente, parou ao lado de um corpo familiar. Alf jazia imóvel, sua pele pálida como cera, seus olhos abertos mas vazios, fixos no céu. Sua respira??o era t?o fraca que era quase imperceptível.

  Algo mudou sutilmente na postura de Zack – um momento de hesita??o, um lampejo de reconhecimento. Por um instante, os olhos completamente negros pareceram clarear ligeiramente, revelando um tra?o da íris humana por baixo da escurid?o.

  Zack se ajoelhou ao lado de Alf e colocou a m?o sobre seu peito. Energia negra come?ou a fluir de seus dedos para o corpo de Alf – n?o para ferir, mas para curar. A respira??o de Alf se fortaleceu visivelmente, cor retornando lentamente às suas faces.

  Sem dizer uma palavra, Zack se levantou e se moveu para a próxima vítima. Repetiu o processo – um toque, energia negra fluindo, sinais de vida se fortalecendo. Ele continuou, movendo-se de pessoa para pessoa, identificando os que ainda podiam ser salvos.

  A cada pessoa que curava, algo sutil mudava nele. A escurid?o em seus olhos recuava ligeiramente. Seus movimentos se tornavam um pouco mais humanos, menos como os de uma marionete controlada por cordas invisíveis.

  Ygon observava tudo com desprezo crescente. "Mesmo agora," disse ele, sua voz carregada de desdém. "Mesmo assim, você ainda tenta salvar todos. Patético."

  Zack n?o respondeu, continuando seu trabalho silencioso de cura.

  Milos, vendo que a aten??o de Zack estava desviada, come?ou a se arrastar para longe da pra?a. Cada movimento era uma agonia, mas o instinto de sobrevivência o impulsionava. Ele precisava escapar, precisava sobreviver.

  "Vazio," murmurava ele enquanto se arrastava, deixando um rastro de sangue atrás de si. "Você falou comigo uma vez. Por favor, fale novamente. Me guie. Me salve."

  Ele conseguiu chegar a uma rua lateral, escura e estreita. A dor era quase insuportável agora, o choque e a perda de sangue cobrando seu pre?o. Mas ele continuou, determinado a viver, a escapar.

  Foi quando virou em um beco ainda mais escuro que Milos se deparou com uma figura. Estava completamente oculta nas sombras – tudo o que podia ver eram olhos. Olhos violetas brilhando na escurid?o como joias malignas.

  O reconhecimento atingiu Milos como um golpe físico. Ele conhecia aqueles olhos. Conhecia o que significavam.

  "N?o," sussurrou ele, tentando recuar. "Por favor, n?o."

  A figura avan?ou um único passo, ainda oculta nas sombras. Uma m?o emergiu da escurid?o – pálida, aristocrática, com unhas perfeitamente manicuradas.

  Os gritos de Milos ecoaram pelas ruas vazias do Bairro Baixo – gritos de dor e desespero que gradualmente se transformaram em gorgolejos úmidos antes de cessarem completamente.

  ---

  Na pra?a, Zack havia terminado de curar todos os que ainda podiam ser salvos. Muitos, infelizmente, já estavam além de qualquer ajuda. Ele se ergueu lentamente, agora muito mais humano em aparência – seus olhos ainda negros, mas com tra?os de íris visíveis; seus dentes ainda afiados, mas n?o t?o pronunciados; seu cabelo ainda branco, mas menos arrepiado.

  Ele se virou para Ygon, que permanecia de pé, ferido mas desafiador.

  "Vamos, Zack," provocou Ygon, um sorriso ensanguentado em seu rosto. "Acabe com isso. Mostre-me seu verdadeiro poder. é tudo que sempre quis."

  Zack o observou por um longo momento. Ent?o, para a surpresa e fúria de Ygon, ele simplesmente virou as costas.

  "Você n?o vale o esfor?o," disse ele, sua voz agora mais humana, embora ainda carregasse um eco estranho.

  A rejei??o atingiu Ygon mais profundamente do que qualquer ferimento físico poderia. Toda sua vida havia sido definida por aquele momento – a chance de enfrentar Zack em seu poder máximo, de experimentar novamente a sensa??o de estar verdadeiramente vivo que apenas aquela luta poderia proporcionar.

  Ser considerado indigno até mesmo de uma morte nas m?os de Zack era a humilha??o final.

  Com um rugido de fúria, Ygon reuniu suas últimas for?as para um ataque final. Ele se lan?ou em dire??o a Zack, sua lamina erguida para um golpe mortal.

  Zack, sem nem mesmo se virar, ergueu a m?o. Ygon congelou no ar, suspenso a meio caminho de seu ataque, incapaz de se mover um centímetro sequer.

  Foi ent?o que a verdade o atingiu com clareza cristalina. Tudo que havia feito – todas as vidas que havia sacrificado, toda a destrui??o que havia causado – havia sido completamente insignificante. Ele nunca teve a menor chance contra Zack. Sua busca por significado através do confronto era vazia desde o início.

  Ele era nada. Menos que nada.

  Zack fechou o punho lentamente. O corpo de Ygon come?ou a se comprimir, como se estivesse sendo esmagado por uma for?a invisível. N?o houve explos?o gloriosa, nenhum último grito de desafio. Apenas um som patético, úmido – como um inseto sendo esmagado sob a bota de um gigante.

  O que restou de Ygon caiu no ch?o com um baque surdo – uma massa irreconhecível de carne e ossos quebrados.

  Zack permaneceu imóvel por um momento, contemplando os restos de seu antigo rival. Ent?o, lentamente, come?ou a caminhar entre os corpos espalhados pela pra?a.

  "Dois mil," murmurou ele, sua voz agora quase completamente humana. "Dois mil mortos."

  O peso dessa realidade parecia esmagá-lo. Seu olhar se deteve em vítimas específicas – uma m?e ainda abra?ando seu filho, ambos com express?es de terror congeladas em seus rostos; um velho casal de m?os dadas, unidos até no fim; crian?as cujas vidas mal haviam come?ado, agora extinguidas para sempre.

  Zack continuou usando sua energia para curar os poucos que ainda tinham chance, mas para a maioria, era tarde demais. Cada cura parecia drenar algo dele, tornando-o mais humano, mais vulnerável. A escurid?o em seus olhos recuava cada vez mais, revelando as íris normais por baixo.

  Foi quando Orpheus emergiu das sombras. Ele havia deixado K, Talia e o Menino seguros atrás da barreira, retornando para avaliar a situa??o. Seus olhos varreram a cena de destrui??o, uma mistura de medo, respeito e tristeza em seu olhar.

  "Zack," chamou ele suavemente, mantendo uma distancia segura.

  Zack se virou lentamente, reconhecendo-o com um aceno quase imperceptível.

  Foi ent?o que aconteceu.

  Entre os corpos, um movimento. Uma crian?a – n?o mais que seis ou sete anos, decapitada, sua cabe?a separada do corpo – come?ou a se mover. A cabe?a rolou, virando-se para encarar Zack.

  Os olhos da crian?a morta se abriram, brilhando com uma luz antinatural, azulada e fria. Líquido negro come?ou a escorrer de sua boca, formando padr?es estranhos no ch?o – símbolos que pareciam mudar e se contorcer quando observados diretamente.

  A boca da crian?a se abriu, e uma can??o come?ou – uma melodia infantil, cantada com uma voz doce e clara que gradualmente se tornava mais perturbadora:

  *"Skull vem vindo, passos lentos,*

  *Traz nas m?os os ossos secos,*

  *Olhos vazios, boca negra,*

  *Quem o vê n?o mais desperta.*

  *Skull se aproxima, sombra longa,*

  *Traz consigo a noite eterna,*

  *Reis e servos, todos tremem,*

  *Quando o Skull enfim governa."*

  A voz da crian?a mudou abruptamente, tornando-se profunda, gutural, antiga – claramente n?o pertencente a uma crian?a ou mesmo a um ser humano.

  "O Rei Violeta faz parte disso," disse a voz, olhando diretamente para Zack. "Sempre fez. Sempre soube."

  A cabe?a da crian?a caiu para o lado, inerte novamente, o brilho sobrenatural desaparecendo de seus olhos.

  Zack permaneceu imóvel por um longo momento, absorvendo as palavras. Ent?o, lentamente, virou-se para olhar na dire??o do castelo do Rei Violeta, visível ao longe, no topo da colina mais alta da cidade.

  Seu rosto se endureceu com determina??o. Sem dizer uma palavra, ele embainha a Lua Negra, que parecia vibrar em antecipa??o.

  "Orpheus," disse ele finalmente, sua voz novamente humana, embora carregada de uma gravidade que n?o estava lá antes. "Cuide deles. Cuide de todos eles."

  "Para onde você vai?" perguntou Orpheus, embora já soubesse a resposta.

  Zack n?o respondeu verbalmente. Apenas olhou novamente para o castelo, seus olhos momentaneamente voltando a escurecer antes de clarear novamente.

  E assim, enquanto o sol come?ava a nascer em um céu que parecia manchado de sangue, Zack caminhou sozinho entre os escombros da pra?a, em dire??o ao castelo do Rei Violeta, a Lua Negra silenciosa mas vigilante em sua bainha.

  A ca?ada estava apenas come?ando.

  Tabelas Oficiais do Mundo

  Tabela 1 — Criaturas do Void

  Tabela 2 — Continente Vermelho

  Tabela 3 — Ca?adores

  Tabela 4 — Sistema de Ranks do Mundo

  Tabela 5 — Energia Espiritual e Habilidades

  Tabela 6 — Ca?adores Irregulares

  Regra Fundamental do Mundo

  Aura n?o define poder.

  For?a física n?o garante sobrevivência.

  Habilidade é o que separa os fortes dos mortos.

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