# Capítulo 16: Ecos de Uma Primeira Ca?ada
Um zumbido forte e repentino atravessou a cabe?a de Zack como uma lamina afiada. N?o era uma dor de ataque, n?o era o Vazio tentando dominá-lo. Era diferente – mais profunda, mais pessoal. Memórias. Fragmentos de um passado que havia sido perdido, enterrado sob camadas de trauma e escurid?o.
Enquanto caminhava ao lado de Orpheus em dire??o ao acampamento, imagens come?aram a surgir em sua mente: treinos ao amanhecer com um Orpheus ainda mais jovem, conversas ao redor de fogueiras sob céus estrelados, a primeira vez que ensinou o garoto a segurar corretamente uma espada. Momentos que havia esquecido, ou que talvez tivesse escolhido esquecer porque a dor de perdê-los era grande demais.
Zack olhou para Orpheus – este Orpheus de quinze anos, com olhos ainda brilhantes de esperan?a e sem as cicatrizes que o futuro lhe traria. Algo mudou dentro dele. Um calor que n?o sentia há anos se espalhou por seu peito, e um sorriso genuíno formou-se em seus lábios. Uma energia positiva emanava dele, algo bom, único, que vinha desse tempo que já n?o existia mais.
"Como você é um pirralho irritante e gentil," disse Zack, as palavras escapando antes que pudesse contê-las.
Orpheus olhou para ele com uma careta de indigna??o, suas sobrancelhas franzidas em uma tentativa de parecer sério e maduro. Zack n?o conseguiu resistir – colocou a m?o no cabelo do garoto e o bagun?ou vigorosamente, soltando uma gargalhada que ecoou pela floresta alienígena.
"Para!" protestou Orpheus, afastando a m?o de Zack com um tapa irritado. Mas havia um brilho em seus olhos, uma alegria mal disfar?ada por receber esta rara demonstra??o de afeto.
O jovem se endireitou, ajustou as roupas e, com uma seriedade exagerada, apontou o dedo diretamente para o rosto de Zack.
"Você vai me respeitar e ter orgulho de mim quando eu obtiver a primeira ca?a!" declarou ele, sua voz oscilando entre a determina??o de um adulto e o entusiasmo de uma crian?a. "Você vai ver, mestre... Nosso treino de anos vai valer a pena... confia em mim só dessa vez!"
A express?o de Orpheus era t?o intensamente séria, t?o comicamente determinada, que Zack n?o conseguiu conter uma nova onda de risos. Dobrou-se para frente, segurando a barriga que doía de tanto rir – uma sensa??o que havia esquecido como era boa.
"Você tem uma condi??o," disse Zack finalmente, recuperando o f?lego e enxugando uma lágrima de riso do canto do olho. "Tu terás que carregar minha carga até o final do ano. Assim, deixo tu ca?ar sozinho. Eu prometo!"
Os olhos de Orpheus se arregalaram. Por um instante, ele pareceu avaliar a proposta, calculando mentalmente o peso da carga de Zack contra a oportunidade de sua primeira ca?ada solo. N?o demorou nem dois segundos para decidir.
"SIM!" gritou ele, pulando para o alto com um entusiasmo explosivo. Come?ou a correr em círculos ao redor de Zack, comemorando como se tivesse acabado de receber o maior presente de sua vida.
Zack observou a celebra??o com um sorriso, seus olhos se fixando na katana que balan?ava na cintura de Orpheus – a Coyote. Era uma arma extraordinária, com uma lamina ligeiramente curva que parecia absorver a luz em vez de refleti-la. O cabo era envolto em couro negro com detalhes em prata que formavam símbolos antigos, e a guarda tinha o formato de duas cabe?as de lobo entrela?adas. Uma arma t?o rara que seu pre?o n?o poderia ser calculado – ninguém venderia um objeto como aquele.
Zack se lembrou do dia em que a entregou a Orpheus. O garoto tinha acabado de completar treze anos e havia passado por um teste brutal que deixou cicatrizes em suas costas que carregaria pelo resto da vida. Mas n?o havia chorado, n?o havia pedido clemência. Havia suportado tudo em silêncio, com uma determina??o que impressionou até mesmo Zack. A katana foi sua recompensa – e o início de um novo nível em seu treinamento.
Enquanto observava Orpheus correr e pular, Zack sentiu instintivamente a ausência da Lua Negra em sua própria cintura. Era estranho n?o sentir seu peso, n?o ouvir seu zumbido constante no fundo de sua mente. Sentia-se mais leve, como se um fardo tivesse sido temporariamente removido de seus ombros.
Pela primeira vez em anos – talvez décadas – Zack n?o queria pensar em nada. N?o queria saber como havia voltado ao passado, ou por quê. N?o queria questionar a realidade desta experiência ou seu propósito. Pela primeira vez em tanto tempo que nem conseguia se lembrar, Zack apenas sorria e se sentia vivo.
"Fique quieto e traga o mapa!" gritou ele para Orpheus, interrompendo a celebra??o. "Me mostra onde está nosso acampamento e quanto falta para chegar na cidade."
Orpheus parou imediatamente, a seriedade retornando a seu rosto. Ajoelhou-se, tirou um mapa dobrado de sua bolsa e o estendeu no ch?o. Com um lápis de carv?o, come?ou a tra?ar linhas e marcar pontos.
"Estamos a sudeste, senhor, do Lago Negro," explicou ele, apontando para uma mancha escura no mapa. "Nosso acampamento está a um quil?metro daqui. A cidade está próxima, mas temos que passar pela Floresta dos Condenados para chegar lá, Mestre."
Zack assentiu, impressionado com a precis?o e conhecimento do garoto. Deu dois tapas leves no rosto de Orpheus – n?o para machucar, mas como um gesto de aprova??o que raramente demonstrava.
"Tu é um bom garoto," disse ele, sua voz mais suave do que o normal. "Agora sabe ler mapas..."
Orpheus sorriu, claramente sem jeito com o elogio inesperado. Guardou o mapa cuidadosamente e se levantou, estudando o rosto de Zack com uma express?o intrigada.
"Mestre, você está estranho," disse ele finalmente. "Está tudo bem?"
Zack n?o respondeu, mas seu rosto estava mais leve, as linhas de preocupa??o e raiva que normalmente o marcavam temporariamente suavizadas. Orpheus hesitou, ent?o fez outra pergunta, seu tom agora sério e preocupado.
"Mestre, por que viemos ao Continente Vermelho? Aqui... bom... eu n?o quero falar isso, senhor... mas..."
"Diga logo!" ordenou Zack, sua voz recuperando parte de sua firmeza habitual.
Orpheus ficou em silêncio por alguns segundos, como se reunisse coragem, ent?o falou novamente:
"Mestre, os monstros aqui e a névoa... é impossível viver."
Zack sorriu, passando a m?o na cabe?a de Orpheus e bagun?ando seu cabelo novamente.
"Vamos indo para o acampamento," disse ele simplesmente, levantando-se.
Orpheus o seguiu, lan?ando olhares preocupados para a cintura de Zack, onde normalmente estaria sua arma. Eles haviam viajado até aqui, até o lugar mais perigoso do mundo conhecido, e Zack estava completamente desarmado. Na mente de Orpheus, só havia uma explica??o: seu mestre estava testando-o, deixando-o assumir a responsabilidade pela prote??o e pelas lutas que certamente viriam.
Caminharam em silêncio por alguns minutos, Zack absorvendo os detalhes estranhos e perturbadores do Continente Vermelho. As árvores gigantescas com suas raízes vermelhas expostas pareciam quase conscientes, suas copas de folhas alaranjadas sussurrando segredos uns aos outros no vento fraco. O solo negro sob seus pés era macio e levemente úmido, como se estivesse vivo e respirando. Ao longe, sons estranhos ecoavam – n?o exatamente animais, n?o exatamente humanos, algo entre os dois.
Orpheus caminhava tenso ao seu lado, uma m?o sempre próxima à empunhadura da Coyote, seus olhos constantemente vasculhando as sombras em busca de amea?as. Zack notou como o garoto já se movia como um guerreiro experiente – silencioso, atento, pronto. Sentiu uma pontada de orgulho, seguida imediatamente por uma onda de tristeza ao lembrar o que o futuro reservava para este jovem promissor.
"Mestre," disse Orpheus de repente, quebrando o silêncio. "Você está me olhando estranho desde que saímos do lago. Aconteceu alguma coisa?"
Zack percebeu a preocupa??o genuína na voz do garoto. Algo dentro dele se moveu – um impulso que n?o sentia há muito tempo, um desejo de compartilhar, de conectar-se. Antes que pudesse pensar melhor, as palavras come?aram a sair.
"Sabia que eu sempre pensei em cantar, tocar viol?o?" disse ele, surpreendendo a si mesmo tanto quanto a Orpheus. "Fiz isso por um bom tempo. Era meu passatempo, amava fazer. Porém, a vida de ca?ador e mercenário n?o me dá tempo para amar ou ter prazer."
Orpheus parou de andar, olhando para Zack como se ele tivesse acabado de se transformar em outra pessoa diante de seus olhos. Em três anos juntos, Zack nunca havia compartilhado nada pessoal, nada sobre seus gostos ou seu passado. O garoto parecia simultaneamente honrado e perturbado por esta súbita revela??o.
Zack sorriu ao ver o impacto de suas palavras. "Mas mesmo n?o fazendo aquilo que amo, encontrei algo que me faz sentir t?o bem e feliz como tocar."
"O que seria?" perguntou Orpheus, genuinamente intrigado.
Zack parou, ajoelhou-se para ficar na altura dos olhos do garoto, e ent?o, com um movimento rápido e inesperado, deu um ti??o na orelha de Orpheus. Imediatamente depois, explodiu em uma gargalhada alta e despreocupada.
Orpheus esfregou a orelha, inicialmente bravo com a provoca??o. Mas ent?o, algo em seu rosto mudou – uma compreens?o silenciosa surgiu em seus olhos. Um sorriso tímido formou-se em seus lábios.
"Obrigado, mestre, por cuidar de mim," disse ele baixinho, as palavras carregadas de um significado que ia muito além do momento presente.
Continuaram caminhando, agora em um silêncio confortável. à medida que se aproximavam do local onde haviam montado acampamento, Zack percebeu que algo estava errado. Fez um gesto para que Orpheus parasse e ficasse em silêncio. O garoto obedeceu instantaneamente, sua m?o indo para a empunhadura da Coyote.
Avan?aram cautelosamente até a borda da clareira onde haviam deixado suas tendas e suprimentos. O que viram fez Orpheus prender a respira??o: um grupo de estranhos estava ao redor da fogueira – um velho de barba branca, uma idosa de cabelos grisalhos presos em um coque apertado, um casal de jovens que parecia nervoso e exausto, e uma mulher morena de cabelos cacheados e olhos vermelhos como rubis.
Todos estavam armados, vasculhando as coisas de Zack e Orpheus, preparando comida como se o local lhes pertencesse.
Orpheus n?o hesitou – com um grito de raiva, saiu correndo em dire??o aos intrusos, sua m?o já puxando a Coyote da bainha.
"Calma!" ordenou Zack, sua voz cortando o ar como um chicote.
Orpheus parou instantaneamente, a meio caminho de desembainhar a katana, olhando para seu mestre com confus?o. Zack nunca havia impedido um ataque contra invasores antes.
Juntos, aproximaram-se da clareira. Imediatamente, todos os estranhos se viraram para eles, armas apontadas – facas, uma espada curta, até mesmo um arco com flecha já posicionada.
"Este é nosso acampamento," disse Zack calmamente, como se estivesse comentando sobre o clima, "mas vocês podem ficar."
Orpheus olhou para seu mestre como se ele tivesse enlouquecido. Os idosos e o casal jovem pareciam aterrorizados, mas a mulher de olhos vermelhos mantinha uma postura firme, sua espada apontada diretamente para o cora??o de Zack.
Sem demonstrar qualquer preocupa??o com as armas apontadas para ele, Zack simplesmente se sentou em um tronco próximo à fogueira e fez um gesto para que Orpheus abaixasse sua katana. Relutante e claramente confuso, o garoto obedeceu, mas permaneceu tenso, pronto para agir ao menor sinal de perigo.
A mulher morena, vendo o que interpretou como uma abertura, avan?ou rapidamente em dire??o a Zack, sua lamina brilhando à luz da fogueira. Antes que Orpheus pudesse reagir, o idoso gritou:
"Pare! N?o os vejo como amea?a, mas como pessoas gentis."
A mulher hesitou, seus olhos vermelhos nunca deixando os de Zack, que continuava sentado tranquilamente, como se n?o houvesse uma lamina a centímetros de seu pesco?o.
If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been unlawfully taken from Royal Road. Please report it.
"Você, senhora," disse Zack, olhando para a idosa que estava sentada do outro lado da fogueira, "vejo que está com o pé inchado. Pelo jeito estava correndo de algo."
A observa??o pegou todos de surpresa. A idosa olhou para seu próprio pé, visivelmente inchado e com manchas roxas ao redor do tornozelo. Zack se levantou lentamente e come?ou a se aproximar dela.
A mulher morena reagiu instantaneamente, colocando a ponta de sua faca contra o pesco?o de Zack, impedindo-o de avan?ar.
"N?o se aproxime dela," sibilou, seus olhos vermelhos brilhando com uma intensidade quase sobrenatural.
A idosa, no entanto, sorriu gentilmente e colocou a m?o no ombro da mulher morena.
"Está tudo bem, querida," disse ela com uma voz suave e cansada. "Deixe-o."
Relutantemente, a mulher abaixou sua arma, mas continuou observando cada movimento de Zack com desconfian?a absoluta.
Zack se ajoelhou diante da idosa e, com uma gentileza surpreendente para suas m?os calejadas de guerreiro, tocou seus pés inchados. Orpheus observava, fascinado e confuso – nunca havia visto seu mestre agir assim.
Ent?o, algo extraordinário aconteceu. Uma energia preta, como fuma?a densa mas sólida, come?ou a envolver as m?os de Zack e os pés da idosa. Pulsava suavemente, como se tivesse batimentos próprios. A idosa arfou, n?o de dor, mas de surpresa.
Lentamente, diante dos olhos de todos, o incha?o diminuiu. As manchas roxas clarearam até desaparecer completamente. Quando Zack finalmente removeu suas m?os, os pés da idosa estavam completamente curados, como se nunca tivessem sido feridos.
Um silêncio at?nito caiu sobre o grupo. Os idosos e o casal jovem olhavam para Zack com uma mistura de medo e admira??o. Orpheus parecia igualmente surpreso – conhecia os poderes de combate de seu mestre, mas nunca o havia visto curar alguém.
A mulher morena, no entanto, olhava fixamente para Zack com uma express?o diferente – reconhecimento. Ela sabia o que era aquela energia negra, o que significava.
O clima mudou sutilmente. O senhor idoso, agora mais relaxado, ofereceu um peda?o de carne assada a Zack e Orpheus.
"Meu nome é K," disse a mulher morena finalmente, ainda observando Zack com intensidade. "Olhos negros s?o raros," continuou ela, "pois ca?ar e matar é uma prática comum para aqueles que nascem com essa cor."
Orpheus olhou para seu mestre com surpresa. Nunca havia ouvido falar disso antes, nunca havia considerado que os olhos negros de Zack pudessem ser motivo de persegui??o.
"Se tocar no meu mestre," amea?ou Orpheus, sua m?o voltando à empunhadura da Coyote, "eu irei cortar cada membro do seu corpo."
A amea?a, vinda de um garoto de quinze anos, deveria ter soado c?mica. Mas havia algo na postura de Orpheus, na intensidade de seu olhar, que deixava claro que n?o era uma amea?a vazia.
Para surpresa de todos, Zack deu uma gargalhada alta e despreocupada. Após um momento de choque, o casal jovem também come?ou a rir, seguido pelos idosos, e finalmente até K permitiu que um pequeno sorriso curvasse seus lábios.
O ambiente mudou completamente, tornando-se quase acolhedor. A tens?o que pairava sobre o grupo desde o início parecia ter sido parcialmente dissipada pelo som inesperado do riso de Zack.
"Estávamos indo para a próxima cidade," disse K, sem elaborar o motivo.
Zack notou as m?os dela tremendo levemente, apesar de sua postura confiante. Observou também o olhar cansado e pesado de todos no grupo – n?o apenas exaust?o física, mas o tipo de cansa?o que vem de estar constantemente em alerta, constantemente fugindo.
"Quem está ca?ando vocês?" perguntou Zack diretamente, sua voz calma mas firme.
K se enrijeceu, sua m?o indo instintivamente para a espada. "Como você sabe que estamos sendo ca?ados?" questionou ela, segurando a arma com mais firmeza.
"Sou um ca?ador," respondeu Zack simplesmente. "Sei como funciona. Mas fiquem tranquilos, estou apenas cuidando do meu pupilo. N?o tenho nada a ver com o que aconteceu ou está acontecendo com vocês."
K e os outros trocaram olhares, claramente n?o convencidos pela explica??o de Zack. O silêncio que se seguiu era pesado, carregado de desconfian?a.
"Vou pegar minhas coisas e partir," anunciou Zack, quebrando o silêncio. "Deixarei o acampamento e as comidas para vocês."
"Espere!" disse o homem jovem, dando um passo à frente. "Meu nome é Matheus, e esta é minha esposa, Loren." Ele indicou a mulher jovem ao seu lado, que ofereceu um sorriso nervoso. "Precisamos de ajuda. Pagaremos pelo seu trabalho, igual estamos pagando a K. Precisamos urgentemente levar minha mulher e meus avós para a Cidade Vermelha."
K olhou para Zack e Orpheus, ent?o assentiu relutantemente. "A gente precisa de ajuda," admitiu ela, "e quanto mais, melhor."
Zack estudou o grupo por um momento, ent?o olhou para Orpheus. "Sou um homem desarmado," disse ele. "O único que pode fazer esse trabalho é Orpheus, se ele aceitar."
Todos os olhares se voltaram para o garoto de quinze anos. Orpheus se endireitou, estufando o peito. Com uma seriedade que parecia quase c?mica em seu rosto jovem, ele estendeu a m?o para K.
K hesitou por um momento, ent?o apertou a m?o oferecida, selando um acordo silencioso. Zack observou o gesto com evidente orgulho, balan?ando a cabe?a em aprova??o.
"Sobre o dinheiro," interrompeu Zack, "uma porcentagem é minha. 50%."
A express?o de Orpheus mudou instantaneamente de orgulho para indigna??o absoluta. "O QUê?!" gritou ele, seu rosto ficando vermelho de raiva.
Sem aviso, Orpheus partiu para cima de Zack, acertando-o com um soco no rosto que pegou o homem mais velho completamente desprevenido. "Seu ladr?o! Vagabundo!" gritava Orpheus, enquanto os dois rolavam pelo ch?o em uma nuvem de poeira e insultos coloridos.
K e os outros observavam a cena com choque, incertos se deveriam intervir. A briga continuou por alguns minutos – socos, chutes, xingamentos criativos – até que finalmente Zack se sentou, seu rosto machucado e um galo visível formando-se em sua testa.
"Tudo bem, tudo bem!" disse ele, erguendo as m?os em rendi??o. "5% está ótimo."
Houve um momento de silêncio, ent?o K come?ou a rir – um som surpreendentemente melodioso vindo de alguém t?o intenso. Logo, todos estavam rindo, incluindo Zack e Orpheus. Eram sorrisos genuínos, o tipo de alegria espontanea que muitos deles n?o sentiam há muito tempo.
Matheus come?ou a falar, claramente prestes a explicar sua situa??o em detalhes, mas Zack o interrompeu com um gesto.
"N?o me importo," disse ele diretamente, "contanto que paguem."
"Gostei de vocês," admitiu K, um pequeno sorriso ainda brincando em seus lábios. "S?o diretos."
Ela se virou para Zack e come?ou a explicar seu plano, detalhando a rota que pretendiam seguir e os perigos que poderiam encontrar.
"N?o é problema meu," interrompeu Zack, para choque de todos, "e sim do Orpheus."
K olhou para ele com incredulidade, ent?o para Orpheus – um garoto de quinze anos que mal chegava à altura de seu ombro. Sua express?o mudou para fúria, e ela avan?ou em dire??o a Zack, claramente pronta para confrontá-lo sobre sua irresponsabilidade.
Para surpresa de todos, foi Orpheus quem a deteve, colocando-se entre ela e Zack.
"Eu posso resolver isso," disse ele com uma confian?a surpreendente. "Confia em mim. Meu mestre sabe o que está fazendo."
K olhou nos olhos do garoto, pronta para dispensar suas palavras como bravata juvenil. Mas havia algo naquele olhar – uma determina??o, uma for?a que parecia muito além de seus anos. Contra sua melhor avalia??o, K sentiu uma confian?a inexplicável neste jovem guerreiro.
"N?o preciso saber do plano," declarou Orpheus. "Quando ele aparecer, a gente mata ele."
K revirou os olhos. "Isso é burrice," disse ela diretamente. "O garoto é um inútil."
"Nunca me senti t?o bem," interveio a idosa, flexionando os pés agora curados. "Por favor, K, dê uma chance ao plano do garoto."
K balan?ou a cabe?a, claramente contra a ideia. Matheus e Loren trocaram olhares, ent?o Matheus se aproximou de K.
"Pagaremos mais," ofereceu ele em voz baixa. "O dobro do combinado."
O rosto de K se contraiu em um conflito interno visível. Finalmente, ela suspirou profundamente. "Tudo bem," cedeu, "mas se morrermos, vou te assombrar pelo resto da eternidade, garoto."
Foi apenas ent?o que todos perceberam – Zack havia desaparecido. Durante a discuss?o, ele simplesmente sumiu, sem que ninguém notasse sua partida.
"Onde está seu mestre?" perguntou Loren, olhando ao redor confusa.
Orpheus deu de ombros, com uma casualidade que surpreendeu até a ele mesmo. "O contrato é meu," disse ele com firmeza. "Podemos seguir em frente."
Nas horas seguintes, o grupo se preparou para a jornada. Comida foi embalada, equipamentos verificados, armas afiadas. Orpheus ajudou em tudo, demonstrando um conhecimento surpreendente sobre sobrevivência no Continente Vermelho para alguém t?o jovem.
Quando finalmente partiram do acampamento, Orpheus e K lideravam o grupo, fazendo a escolta da família. O sol alienígena do Continente Vermelho come?ava a se p?r, lan?ando sombras estranhas e alongadas através das árvores gigantescas.
"Faz quanto tempo que é ca?ador?" perguntou K enquanto caminhavam. "Quantos trabalhos você fez?"
"é meu primeiro trabalho," admitiu Orpheus sem hesita??o. "Nunca cacei ninguém. Mas tenho uma ca?ada programada no Continente Vermelho e meu mestre já preparou tudo."
K parou de andar, olhando para Orpheus com horror absoluto. "Que tipo de mestre doente é esse?" murmurou ela, seus olhos vermelhos varrendo a floresta ao redor, como se esperasse que Zack aparecesse a qualquer momento.
O que nenhum deles sabia era que Zack realmente estava por perto. Escondido entre as árvores gigantes, ele observava o grupo avan?ar, um pequeno sorriso em seus lábios. Esta era a verdadeira primeira ca?ada que havia prometido a Orpheus – n?o contra monstros, mas uma miss?o real de prote??o, um teste de suas habilidades e julgamento.
Zack seguia o grupo silenciosamente, mantendo distancia suficiente para n?o ser detectado, mas perto o bastante para intervir se necessário. Estava determinado a dar a Orpheus a chance de crescer e provar seu valor.
Enquanto observava, algo chamou sua aten??o – um movimento nas sombras do outro lado da trilha. N?o era humano; disso tinha certeza. A forma se movia de maneira errada, fluida demais, como se n?o tivesse ossos. E parecia estar seguindo o mesmo grupo.
Zack hesitou, dividido entre manter-se oculto para permitir que Orpheus enfrentasse o desafio, ou revelar-se para proteger o grupo do perigo iminente que nem mesmo K, com todos os seus sentidos agu?ados, parecia ter notado.
A criatura nas sombras parou, como se sentisse que estava sendo observada. Lentamente, virou o que parecia ser sua cabe?a na dire??o de Zack. N?o tinha olhos visíveis, mas Zack sentiu-se sendo estudado, avaliado.
Ent?o, t?o silenciosamente quanto havia aparecido, a criatura recuou para as profundezas da floresta, desaparecendo entre as raízes vermelhas e a terra negra.
Zack permaneceu imóvel por um longo momento, seus instintos gritando que algo estava profundamente errado. Mas quando olhou novamente para Orpheus, viu o garoto ajudando a idosa a passar por um trecho difícil do caminho, sua postura confiante e protetora.
Com um suspiro, Zack decidiu continuar observando das sombras. Por enquanto.
A verdadeira ca?ada estava apenas come?ando.
Lembre-se de acompanhar a história e deixar um favorito e um comentário para me dizer se você gostou ou n?o. Vejo que muitas pessoas leem a história, mas n?o seguem a página — seu apoio realmente me ajuda a entender que você gostou.
Obrigado pela leitura.
Tabelas Oficiais do Mundo
Tabela 1 — Criaturas do Void
Tabela 2 — Continente Vermelho
Tabela 3 — Ca?adores
Tabela 4 — Sistema de Ranks do Mundo
Tabela 5 — Energia Espiritual e Habilidades
Tabela 6 — Ca?adores Irregulares
Regra Fundamental do Mundo
Aura n?o define poder.
For?a física n?o garante sobrevivência.
Habilidade é o que separa os fortes dos mortos.

