Capítulo 27: O Peso do Legado
A pra?a, antes um palco de horror e êxtase religioso, agora estava em um silêncio tenso. A multid?o, antes um coro de louvores a Skull, agora era uma massa de corpos vazios, seus olhos fixos em Zack, mas suas mentes em outro lugar. O ar estava pesado, carregado com o cheiro de sangue, incenso e a promessa de violência ainda maior. Tobi, ao lado de Zack, quebrou o silêncio, sua voz um sussurro rouco que cortou o silêncio como uma lamina.
"Você tem pesadelos recorrentes com o Dia D?" A pergunta, aparentemente casual, pairou no ar, carregada de um peso que só os dois conseguiam compreender. Zack, que estava olhando para o ber?o no centro da pra?a, virou-se para Tobi, surpreso estampado no rosto. Tobi, no entanto, n?o olhava para ele. Seus olhos estavam perdidos no horizonte, como se vissem fantasmas que Zack n?o conseguia. "Eu sei," confessou Tobi, a voz vacilando por um instante. "Com Nanashi. E com a Momo."
Zack sentiu um nó se formar na garganta. Ele conhecia a dor de Tobi, mas raramente a via t?o exposta. "O que foi o Dia D?" ele perguntou, curiosidade misturada com uma premoni??o sombria. Tobi estremeceu, o desconforto evidente em sua postura. Ele balan?ou a cabe?a, desviando o olhar. "N?o importa." Ele mudou de assunto, a voz agora um pouco mais firme, mas ainda carregada de uma profunda melancolia. "Você já se sentiu livre, Zack?"
A pergunta atingiu Zack como um soco no est?mago. Liberdade. Uma palavra que raramente se permitia pensar. "Eu tento n?o pensar muito nisso", respondeu, a honestidade em sua voz mais reveladora do que qualquer discurso. Tobi olhou para ele, com um sorriso triste nos lábios. "Eu sei." Ele fez uma pausa antes de continuar, sua voz agora com um tom de genuína curiosidade. "Por que você sempre ia primeiro? Em miss?es. Para levar os golpes."
Zack o encarou, surpreso com a pergunta. Tobi riu, uma risada curta e sem humor. "Sempre achei você corajosa. O mais corajoso de nós." Mas Zack n?o sorriu. Seu olhar era frio, cansado, como se carregasse o peso de mil batalhas. "Fui porque ninguém liga se uma pessoa de olhos negros morre." A frase, dita com uma calma assustadora, pairou no ar, um testemunho brutal da realidade em que viviam. Um silêncio desconfortável se instalou entre eles, quebrado apenas pelo som distante do vento uivando pelas ruas vazias da cidade.
---
Tobi suspirou, o som carregado de uma resigna??o que parecia antiga. "Seu pai n?o pode mudar isso, Zack", disse ele, a voz um murmúrio. Zack apenas apontou para os próprios olhos, um gesto simples que dizia muito sobre o preconceito e a dor que carregava desde o nascimento. Tobi ficou em silêncio, sem palavras para confortar uma dor t?o profunda. "Nanashi sempre foi contra", continuou Zack, agora a voz um pouco mais suave, nostálgica. "Ele foi o único que nos apoiou, que nos via como iguais. A cor dos nossos olhos n?o importava para ele." Ele fez uma pausa, os olhos perdidos em memórias de um tempo mais simples. "Eu tento manter seu legado vivo. N?o julgo ninguém pela cor dos olhos, nem mesmo pelas violetas."
Tobi soltou uma risada amarga, o som quebrando a reverência do momento. "Toda essa besteira matou o Nanashi," cuspiu, raiva e dor misturadas na voz. "De que adiantava um legado de alguém que morreu por uma causa nobre em um mundo de tolos?" A acusa??o atingiu Zack como um tapa na cara. "Cale a boca, Tobi!" rosnou, a fúria brilhando em seus olhos. "N?o insulte o legado de Nanashi!"
Mas Tobi n?o se intimidava. Ele riu, uma risada baixa e quebrada, enquanto olhava para suas próprias m?os, como se visse o sangue dos amigos nelas. "Eu nem sei por que luto, Zack", confessou, a voz agora um sussurro de desespero. "Me tornei o retrato de um pequeno soldado: 'sim, capit?o!', 'n?o, capit?o!'. Eu sou uma piada. E a verdade é que eu gosto." A confiss?o foi um soco no est?mago de Zack, revelando a profunda crise existencial do amigo. "Eu n?o esperava te ver, mas foi bom, nos velhos tempos. Valeu, Zack, você é um bom amigo." Zack sorriu, um sorriso genuíno em meio ao caos. "Estamos juntos nessa."
A conversa, por um breve momento, os uniu, mas a realidade da situa??o logo se imp?s. "E o bebê?" Zack perguntou, com a voz tensa. "Tenho que atender," respondeu Tobi, a resigna??o em sua voz cortando o cora??o de Zack. "Você sabe o que vai acontecer se eles..." Zack come?ou, mas Tobi o interrompeu. "Eu sei." O desconforto pairava entre eles, a inevitabilidade do que estava por vir pesando sobre seus ombros. "Se eu voltar sem o bebê, eles v?o me matar", disse Tobi, a voz sem emo??o. "Eu sei", respondeu Zack, consumido pela culpa. "Tudo isso é culpa minha. Merda!!"
This content has been misappropriated from Royal Road; report any instances of this story if found elsewhere.
"Ninguém pediu para você ser o herói do país," Tobi o interrompeu, a frustra??o na voz evidente. "Planejamos por anos, você deveria ser um bom menino." O fracasso do plano, o idealismo que levou à morte de tantos, incluindo Momo, pesava sobre eles. A men??o de Momo abalava visivelmente Tobi. Seu corpo ficou pesado, seus olhos perderam o brilho, a angústia estampada no rosto. Zack tentou confortá-lo, dizendo que Momo morreu por um ideal justo e feliz. A resposta de Tobi foi um grito de dor e raiva. "Mas e eu!? Estou feliz, Zack? Droga, Zack!! Sou uma pessoa ferrada, suicida, que n?o vê valor em nada além de transar com prostitutas e beber cerveja em bares velhos." A dor era palpável, crua, insuportável. Zack, indefeso, apenas concordou que eram escolhas e que o mundo era lixo.
A conversa culminou em um pacto sombrio, uma promessa de violência entre amigos. "Quando brigarmos, n?o me poupe! N?o vou poupar vocês! Entendido?" Tobi exigiu, os olhos fixos nos de Zack. Zack hesitou, a ideia de lutar contra o amigo o encheria de horror. Mas Tobi insistiu, a voz firme, desesperada. "Zack! Para, dane-se! Você sabe como funciona." Zack assentiu, a resigna??o pesando em seu cora??o. "Sim." Eles selaram o acordo com um aperto de m?o, um gesto de amizade distorcido pela promessa de morte. "N?o na cara, para n?o estragar o funeral", disseram juntos, uma piada macabra que só destacava a tragédia da situa??o. Tobi, em um último ato de camaradagem, desapareceu, deixando Zack sozinho com seu fardo, o eco de sua risada amarga ainda pairando no ar.
---
Zack ficou sozinho, o silêncio da pra?a agora preenchido pelo eco das palavras de Tobi. "Desgra?ado, ele sempre faz isso", murmurou, com um sorriso triste nos lábios. Ele olhou para o bebê, o choro desesperado da crian?a cortando o ar como uma faca. Era hora de agir. Com um salto, pousou no meio da pra?a, o som de seus passos no ch?o de pedra sendo o único som em um mar de silêncio. No momento em que se aproximou, os canticos e ora??es cessaram. Milhares de olhos baixos e opacos, com sorrisos falsos e vazios, se voltaram para ele. Um coro de vozes baixas come?ou a chamar o nome de Skull, o som se intensificando, espalhando-se pela pra?a como uma praga, unindo-se em um único propósito de elogio profano. As pessoas ajoelhadas levantavam e abaixavam as m?os em devo??o ao bebê, que chorava em desespero, frio e medo, tendo a lua de sangue como sua única e terrível companheira. A energia de todos os habitantes envolvia a crian?a, um manto de escurid?o e adora??o doentia.
"Preciso cortar a liga??o entre o bebê e a lua", pensou Zack, sua mente trabalhando rápido. "Mas n?o vejo quem está mediando o ritual." Ele olhou para a multid?o, para os rostos vazios e olhos sem vida, e soube que o mestre do ritual estava escondido entre eles. "Eu sei!" Ele tirou um pergaminho de localiza??o de dentro das roupas, um item que raramente usava. "Sempre odiei fazer essa merda, sou lento e péssimo com pergaminhos," resmungou, mas n?o havia outra escolha. Mordeu o dedo, o gosto metálico do sangue preenchendo sua boca, e come?ou a desenhar letras e símbolos, uniformes e irregulares, no pergaminho. Uma quantidade mínima, quase insignificante, da energia do ritual era direcionada para o papel, que do branco se tornava preto, frágil como se tivesse sido queimado. O papel se desintegrou, e poeira negra se formou no ar, flutuando, dan?ando, antes de seguir em uma dire??o específica.
Zack seguiu a poeira com os olhos, o cora??o disparado. Ele passou pela multid?o, afastando-se do bebê, em dire??o ao lado direito da pra?a, onde alguém estava camuflado, escondido em meio à multid?o de adoradores. "Droga! As li??es da Mira valeram a pena", pensou, um raro momento de alívio em meio ao caos. Ele sabia que n?o podia mover o bebê; qualquer movimento brusco poderia matá-lo. Ele precisava cortar a conex?o e, para isso, precisava encontrar o mestre do ritual. A multid?o, como se percebesse sua inten??o, come?ou a se dispersar no local indicado pela poeira, abrindo um caminho e revelando a figura escondida nas sombras.
---
à medida que o caminho se abria, a energia no ar ficou mais pesada, mais densa, quase sufocante. Zack sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um pressentimento de que algo terrível estava prestes a acontecer. E ent?o, ele sentiu. Um cheiro. Um cheiro forte, intoxicante, contraditório. Sangue, cereja e amora. Era doce, mas feroz e quente, uma combina??o que mexia com seus sentidos, que o deixava enjoado e fascinado ao mesmo tempo. A sensa??o de paz que o cheiro trazia era uma mentira, uma armadilha para os desavisados, porque a energia emanada da figura que se aproximava era o oposto. Era uma energia de morte, de destrui??o, de um mal t?o puro que fazia o ar vibrar.
O movimento da multid?o aumentou, uma onda de antecipa??o se espalhando pelas massas ajoelhadas. Zack sabia que a fonte do ritual, o inimigo, estava próximo. O doce e sufocante aroma da paz e a aura avassaladora da morte criavam uma dualidade aterrorizante, uma contradi??o que lhe causava uma onda de náusea. Ele se preparou, sua m?o instintivamente procurando uma arma que n?o estava lá. A figura emergiu da multid?o, uma silhueta contra a lua vermelha sangue, e o capítulo termina com Zack enfrentando essa nova amea?a, desconhecida e assustadoramente contraditória, o doce cheiro de cerejas e amoras um prenúncio de um novo e ainda mais distorcido nível de inferno.

